Atitude de união contra o câncer salva vidas no norte mineiro

Atitude de união contra o câncer salva vidas no norte mineiro

 

Na recepção do hotel, no centro de Montes Claros, os funcionários vestem uma camiseta que destaca em letras grandes um pouco do que a cidade tem de melhor: "Pequi & Beiju & Mercado Municipal". Mas o motivo da nossa visita é outro, uma qualidade que o pequeno município do norte mineiro parece ter de sobra, que poderia ser estampada na mesma camiseta e resumida em uma palavra: solidariedade.

A cidade recentemente ganhou visibilidade com um vídeo que viralizou nas redes sociais e mostra um pouco da sua vocação para a empatia. Para evitar que as mercadorias de um ambulante fossem recolhidas pela fiscalização, as pessoas que passavam pela praça central compraram tudo e evitaram o prejuízo. O vídeo registrou a reação emocionada do vendedor e foi reproduzido em diversos veículos de notícia.

Duas semanas depois, no dia 06 de abril, a praça seria palco de outro grande gesto de cooperação e apoio, desses com potencial de mudar não uma, mas milhares de vidas. Naquela sexta-feira com clima relativamente ameno - para uma cidade meio mineira, meio baiana, com termômetros que costumam beirar os 40° - quase 2.700 pessoas compareceram à Praça Dr. Carlos Versiani para participar do 8º Mutirão de Prevenção ao Câncer, organizado pela Associação Presente.

O sol ainda não tinha saído quando as primeiras pessoas começaram a ocupar a praça. Pegar um bom lugar na fila era garantir que o check-up seria completo. Foi o que fez Irene Alves Soares, de 62 anos, a primeira na fila do exame de mama. A aposentada, que participou pela terceira vez do mutirão, chegou um pouco antes das 5h e conseguiu fazer todos os exames que queria antes do almoço. As horas que passou ali não se comparam com o tempo que gastaria para ter esse atendimento no sistema público da cidade. "Pra pedir uma mamografia num posto demora uns 4, 5 meses", explicou Dona Irene.

A dificuldade do SUS em atender a população de 400 mil habitantes - e a demanda crescente de quase 90 municípios da região - foi lembrada por todos os entrevistados que participaram do mutirão. Foi essa demora também que motivou a iniciativa. "Para a grande maioria das pessoas essa é a única chance de ter acesso ao urologista, mastologista e exames que dão a oportunidade para o diagnóstico precoce e aumentam a possibilidade de cura", explicou a oncologista e fundadora da Associação Presente, Dra. Príscila Miranda. As tendas montadas na praça ofereciam exames preventivos para câncer de próstata, mama, colo de útero, pele e boca, além de orientação nutricional.

O mutirão já se tornou visita obrigatória para muitos moradores. É o caso do Seu Geraldo Amador Alves, de 61 anos, que recebeu pela quinta vez o atendimento. Foi em uma dessas consultas que ele foi alertado sobre a atenção redobrada que deveria dar ao exame de toque.  "O médico falou que deu uma pequena alteração na próstata e que eu ia ter que repetir todos os anos. Então eu tenho vindo sempre e graças a Deus não piorou", contou aliviado.

O exame de toque parece não ser tabu por ali. As piadinhas e risadas fazem parte das conversas que se ouve nos grupinhos de homens que tomam conta da praça, mas não passam de descontração. Elas não impedem que a fila para o exame de PSA e de toque cresça e se torne a maior entre todas as esperas do mutirão. Ali, a dificuldade parece estar no acesso e não no preconceito.  Seu Jeremias Ruas de Oliveira, de 81 anos, era o último da fila, mas não ia desistir. O aposentado ouviu na TV sobre o mutirão e viajou 60 quilômetros para realizar o exame que não é oferecido em sua cidade, Francisco Sá.

O urologista Dr. Conrado Menezes participa como voluntário pelo sétimo ano e confirma a crescente procura pelo exame de toque. "A cada dia os pacientes estão ficando mais adeptos ao exame, estão acabando com os tabus e se prevenindo", conta. Nas sete edições do evento, foram diagnosticados 40 casos de câncer de próstata.

Na fila do exame de mama, um grupo de mulheres nos indaga se vão conseguir atendimento, já que estão abaixo da idade recomendada. Maria de Fátima conta que foi orientada a realizar a mamografia anualmente, por conta da calcificação mamária, mas não tem conseguido fazer no sistema público. Elisabete Rodrigues, de 47 anos, também teve o pedido recusado no SUS por estar abaixo da idade. Ela decidiu procurar o mutirão depois de ter notado uma secreção nos seios. Atendida pela mastologista, saiu de lá com a mamografia agendada para a semana seguinte.

A mastologista Dra. Bertha Andrade Coelho, que participa pela quinta vez da ação, explicou que, após o exame clínico, todas as pacientes que estão na faixa etária indicada pelo SUS - entre 50 a 69 anos - são encaminhadas para realizar a mamografia que é marcada para a semana seguinte. O exame também é agendado para pacientes com suspeitas, mesmo fora da idade recomendada. Até o momento da entrevista, a especialista havia realizado 200 atendimentos com dois casos altamente suspeitos.

Afinal, zerar as filas não é único objetivo do mutirão. O encaminhamento e acompanhamento de casos suspeitos é o grande diferencial da mobilização que acontece anualmente em Montes Claros. "O atendimento não é só hoje e acabou. Nós temos o compromisso e a responsabilidade de darmos sequência aos casos suspeitos, garantimos as biópsias, indicamos para quais hospitais conseguimos mais rápido, iniciamos atendimento, porque o câncer não espera. O tempo tem que ser rápido para que a gente consiga converter um diagnóstico de câncer em cura definitiva", esclarece Dra. Príscila.

A consciência sobre a importância de cuidar da saúde preventivamente também já existe nos mais jovens. A estudante Taíssa Dias, de 19 anos, aguardou algumas horas na fila para ser examinada por uma dermatologista. Ela, que morava em São Paulo, se preocupa com exposição excessiva ao sol em uma cidade conhecida pelas altas temperaturas. Depois do atendimento, saiu aliviada, mas com a recomendação que colocou em prática ali mesmo na praça: usar filtro solar.  

 

Saúde espera por recursos

Sentada no banco de concreto, segurando uma sombrinha para se proteger do sol, Dona Joana de Fátima Gusmão se lembra com saudade do tempo em que aquela praça, hoje quase sem verde, era coberta de grama e roseiras. "Eu estudava aqui perto e passava sempre por aqui. Os bancos para sentar eram melhores também. Dava para encostar", ela brinca.

Ela, que já teve que retirar um nódulo da mama, participa sempre do mutirão e leva junto o marido, que aguardava na fila do exame de PSA. Conta que ajuda como pode a Associação Presente pelo trabalho que realiza na cidade. "Se dependesse da saúde pública essas pessoas nunca seriam atendidas".

Montes Claros conta com cinco hospitais, além das unidades de assistência básica. O munícipio sofreu dificuldades com o repasse de verbas, o que levou a Prefeitura a decretar calamidade pública na saúde em 2013. Diante do impasse, o então prefeito da cidade, Ruy Muniz (PRB), abriu mão da gestão dos recursos do Sistema Único de Saúde, passando a responsabilidade para o governo do estado.

A mudança não surtiu efeitos práticos, e a população segue com dificuldades para conseguir atendimento. Prova disso é a participação cada vez maior nos mutirões de prevenção ao câncer. Neste ano, foram 2.685 atendimentos, 285 a mais que na edição anterior.

 

Quando os desafios são grandes, a colaboração é maior

Assim como crescem os atendimentos, cresce também o número de interessados em colaborar com a iniciativa. Na edição 2018, foram 225 voluntários, com direito a lista de espera. A cooperação parece ser a palavra de ordem ali. Profissionais da saúde, universidades e sociedade se unem para ajudar da forma que podem.

Toda ajuda é bem-vinda. Entre estudantes de enfermagem que fazem a triagem, médicos especialistas que conduzem os exames, voluntários que organizam as filas, tem até quem colabora lá de longe, grudado na tela de um computador. É o caso dos alunos de Bioestatística da Universidade Estadual de Montes Claros. A pesquisadora e professora do curso, Marise Fagundes Silveira, explica que ali é feita a análise das informações relacionadas a todas as especialidades que são atendidas. "Esses dados serão tratados para gerar produto científico e relatórios para determinar o perfil epidemiológico dos pacientes atendidos".

Em sete anos de edição, foram mais de 10 mil atendimentos e 86 casos de câncer diagnosticados. Os números oficiais desta edição devem sair na primeira semana de maio.

 

"O mutirão salvou a minha vida"

A babá Marli Vilela Silva, 43 anos, descobriu um câncer de mama em 2015, depois de ser examinada no mutirão de prevenção. "Tomando banho senti uma coisa esquisita na minha mama e no dia seguinte ia ter o mutirão, então eu fui". Ela nunca havia feito mamografia, por estar fora da faixa etária recomendada. "No exame clínico mesmo eles já acharam que tinha alguma coisa errada e eu fiz a mamografia no mesmo dia".

Com o diagnóstico confirmado, logo realizou a cirurgia e iniciou o tratamento quimio e radioterápico. "Os exames, a cirurgia foram rápidos. Só sei que em um mês já tinha feito tudo". Ela fez o tratamento durante nove meses e hoje segue apenas em acompanhamento. "Eu já me sinto 100% curada", afirma.

"A Associação (Presente) para mim é tudo. Se não fossem eles me apoiando eu não estaria aqui hoje para contar minha história". Ela, que diagnosticou o tumor em estágio inicial, deixa um recado para as mulheres. "Façam o autoexame e se perceberem qualquer coisa procurem o médico. Não tenham medo de descobrir. Quando você descobre no início tudo é mais fácil de se resolver", conclui otimista.

 

Confira aqui mais fotos do evento.