Câncer ultrapassa doenças cardiovasculares como principal causa de morte nos países ricos

Câncer ultrapassa doenças cardiovasculares como principal causa de morte nos países ricos

Dois estudos apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia mostram que o mundo vem passando por uma nova transição epidemiológica entre as doenças não transmissíveis


 

Redação LAL* - O câncer ultrapassou as doenças cardiovasculares como causa de morte nos países ricos. A informação foi publicada no The Lancet e apresentada, na semana passada, no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia - ESC 2019. Nos países pobres ou em desenvolvimento, as doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte. Os dois estudos foram realizados pela Prospective Urban and Rural Epidemiologic (PURE).

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre os adultos no mundo todo, representando 40%. Nos países ricos, o quadro muda. O câncer passa a ser responsável por duas vezes mais mortes do que as doenças cardiovasculares. Estima-se que, em 2017, ocorreram cerca de 55 milhões de mortes no mundo, sendo 17,7 milhões por problemas cardíacos.

"O mundo está testemunhando uma nova transição epidemiológica entre as diferentes categorias de doenças não transmissíveis (DCNT), com as DCV não sendo mais a principal causa de morte nos países ricos", afirma o Dr. Gilles Dagenais, professor emérito da Universidade Laval, Quebec, Canadá, e principal autor do primeiro estudo. "Nosso relatório constatou que o câncer foi a segunda causa de morte mais comum em todo o mundo em 2017, respondendo por 26% de todas as mortes. Mas, à medida que as taxas de DCV continuam a cair, o câncer pode se tornar a principal causa de morte no mundo, dentro de poucas décadas", completa Dagenais.

O estudo constatou que a incidência das doenças cardiovasculares por 1.000 habitantes/ano é de 7,1, 6,8 e 4,3 em países pobres, em desenvolvimento e ricos, respectivamente. Por outro lado, câncer e doenças respiratórias, como a pneumonia, são menos comuns nos países pobres, em comparação com os mais ricos. 

Para o doutor Salim Yusuf, professor de medicina da Universidade McMaster e pesquisador principal do estudo, as estratégias de longo prazo de prevenção de DVC mostraram ser bem-sucedidas na redução do peso delas nos países ricos. "Mas uma mudança de tática é necessária para aliviar o impacto da DVC nos países de baixa renda e em desenvolvimento. Os governos desses países precisam investir uma parcela maior do Produto Interno Bruto em prevenção e gerenciamento de doenças não transmissíveis, incluindo DCV, em vez de se concentrarem em doenças infecciosas", afirma Yusuf.

Outro ponto importante dos estudos publicados no The Lancet é que os fatores de risco para DCV são modificáveis. No mundo todo, fatores metabólicos, comportamentais, socioeconômicos, psicossocias e ambientais são responsáveis por 70% dos casos de DCV. Os fatores metabólicos são o maior fator de risco no mundo (41,2%), sendo a hipertensão (22,3%) o principal fator nesse grupo.

"Chegamos a um ponto de virada no desenvolvimento de estratégias de prevenção e gerenciamento de DCV", diz Annika Rosengren, professora de medicina de Goteborg, na Suécia. Sumathy Rangarajan, que coordenou o estudo, acrescenta que o nível econômico tem impacto nos fatores de risco. "Embora alguns fatores de risco certamente tenham grandes impactos globais, como hipertensão, tabaco e baixa educação, o impacto de outros, como dieta inadequada, poluição do ar, varia bastante de acordo com o nível econômico da população. Atualmente, existe uma oportunidade de realinhar as políticas globais de saúde e adaptá-las a diferentes grupos de países, com base nos fatores de risco de maior impacto em cada ambiente", coloca Rangarajan.

Os autores dos estudos reconhecem que eles possuem algumas limitações. Eles alertam, que apesar de ser o único estudo envolvendo 21 países em um estudo de coorte, os dados não devem ser generalizados para todos os países. Isso porque o PURE não inclui dados da África Ocidental, norte da África ou Austrália; o número de participantes do Oriente Médio é modesto; e os dados dos países pobres são predominantemente do sul da Ásia, com alguns países africanos.

*Com informações do EurekAlert