Cigarro eletrônico tem apelo entre os jovens, mas causa danos à saúde

Cigarro eletrônico tem apelo entre os jovens, mas causa danos à saúde

Novos estudos apontam que dispositivo danifica os vasos sanguíneos; aumento no número de usuários preocupa autoridades de saúde no mundo


Bia Rodrigues, Redação LAL - O cigarro eletrônico surgiu no início dos anos 2000 e se popularizou nos últimos anos. Dito como menos prejudicial que a versão tradicional, chegou a ser usado por alguns fumantes e recomendado em tratamentos para a cessação do tabagismo. A comercialização do produto é proibida no Brasil, mas é muito fácil consegui-lo pela internet ou em lojas físicas mesmo. Muitos brasileiros também aproveitam as viagens ao exterior para trazerem o produto na mala.

Leia também:
Evitar novos fumantes e diminuir número de ativos são desafios para o Brasil 

Motivos para largar o cigarro: melhora na saúde e economia de gastos  
Mortalidade feminina por câncer de pulmão só vai estabilizar em 2030    
Terapias alternativas no SUS dão suporte para superação do tabagismo?
Prefeito de São Paulo sanciona lei que proíbe fumo em parques públicos?

A Agência Nacional de Saúde (Anvisa) vem discustindo a regulamentação do cigarro eletrônico no país. A primeira manifestação da agência reguladora aconteceu em 2009, quando publicou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 46/2009, que proibiu a comercialização, a importação e a propaganda de cigarros eletrônicos. Desde 2016, ela vem atualizando e levantando novas informações. No último dia 8 de agosto, realizou uma Audiência Pública sobre o tema.

Para a cardiologista e coordenadora da Área de Cardiologia do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), Jaqueline Scholz, a agência acertou em proibir a venda do cigarro eletrônico no país. "Para mim, foi uma decisão acertadíssima e não deve haver pressa para liberá-lo. As experiências em outros países vão nos ensinar o que o cigarro eletrônico provoca na saúde. Se houver uma liberação, que aconteça por meio de uma regulamentação que o torne bastante desinteressante, com preço superelevado, sem aditivos de aroma e com baixa quantidade de nicotina. O Brasil ainda tem 18 milhões de fumantes para tratar. Como médica, o que eu menos quero é que esses indivíduos e aqueles que têm interesse em parar de fumar migrem para a versão eletrônica", destaca Jaqueline.

O publicitário Fernão Cosi, 56 anos, fumou o cigarro tradicional por quarenta anos. Perguntado sobre a sensação que sentiu ao fumar o primeiro cigarro, ele afirma que a sensação física deve ter sido ruim, mas "a imagem deve ter sido boa... O verdadeiro homem de Marlboro, decidido, corajoso, sentado no seu cavalo olhando o horizonte". Ele está na terceira tentativa para largar o vício e resolveu adotar o cigarro eletrônico. "Fiz pesquisas sobre o tema. O Dr. Google está sempre à disposição, mas a verdade é que embora não tenha achado muitas informações confiáveis ou chanceladas por algum órgão de saúde respeitável, achei algumas que incentivaram a troca, acho que pesquisas na Inglaterra", conta o publicitário.

A intérprete e tradutora, Dulce Cramer, 42 anos, fumava de 15 a 20 cigarros por dia e também trocou a versão tradicional pela eletrônica por acreditar ser menos prejudicial. "O eletrônico não tem tabaco e outras substâncias prejudiciais que estão presentes no cigarro. Além disso, posso escolher a quantidade de nicotina que quero. Eu me sentia mal fumando e ficava sempre doente. Agora isso não acontece e não preciso de cinzeiro, não tem bituca e nem cheiro ruim", afirma Dulce, que acrescenta que o marido fez pesquisas sobre o cigarro eletrônico, antes de fazerem a troca. A tradutora acredita que o cigarro eletrônico deveria ser liberado no Brasil, mas exclusivo para adultos e com controle e monitoramento do acesso a ele.

Mas é verdade que o eletrônico é menos prejudicial que o tradicional? A cardiologista do InCor alerta que essa ideia foi um marketing da própria indústria do produto, que se baseou em trabalhos que comparavam a quantidade de substâncias tóxicas entre uma versão e outra. "Já sabemos que, do ponto de vista cardiovascular, a crença de que o eletrônico é menos prejudicial não é verdadeira. A nicotina e a inalação das outras substâncias provocam dano inflamatório para a parede das artérias. Essa é a situação que mais envolve o risco para infarto e AVC. As principais causas de morte dos fumantes são essas duas doenças. Então, para nós cardiologistas e neurologistas, isso é um tiro no pé. Podemos garantir que o que o cigarro eletrônico tem é inflamatório também", afirma a doutora Jaqueline.

Estudos recentes vêm demonstrando que usar o cigarro eletrônico não é tão seguro assim. Uma pesquisa da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia (EUA) apontou que o dispositivo danifica os vasos sanguíneos, mesmo na versão sem nicotina. Além disso, o CDC (Center of Diseases Control and Prevention) dos Estados Unidos passou a investigar uma misteriosa doença pulmonar ligada ao uso de cigarro eletrônico. Segundo notícias publicadas em todo o mundo, 94 pessoas em 14 estados americanos foram afetadas pelo problema. No dia 26 de agosto, foi anunciada a primeira morte por causa dessa doença respiratória em Illinois.

Em fevereiro desse ano, as autoridades americanas de saúde anunciaram com grande preocupação o aumento do número de jovens que usam o cigarro eletrônico no país. Segundo os dados, houve um incremento de 1,5 milhão de estudantes do ensino médio e universitário, de 2018. Esse aumento ameaça eliminar os avanços alcançados na redução do tabaco entre os jovens americanos. O JUUL é um cigarro eletrônico extremamente popular entre os adolescentes e jovens americanos. Semelhante a um pen-drive, sua publicidade é voltada para as mídias sociais frequentadas por eles, amplificada pelo uso de hashtags e envolve o uso de influenciadores, segundo o estudo da escola de Medicina, da Stanford University, "JUUL Advertising Over its First Three Years on the Market" (Publicidade do JUUL nos primeiros três anos de mercado").

Também é possível colocar essências no líquido do cigarro eletrônico algo que aumenta o apelo no meio dos jovens. Tudo isso preocupa as autoridades de saúde no Brasil e no mundo. "Quando você fuma um cigarro convencional, da primeira tragada em uma festa até o momento de estar comprando cigarro, é um processo que pode levar até seis meses. Com o JUUL, por exemplo, esse processo é mais precoce. Em três meses, a pessoa já está adicta. O indivíduo começa a manifestar sintomas de abstinência bem rápido, diferente até do próprio cigarro convencional", alerta a cardiologista do InCor, Jaqueline Scholz. A melhor opção para a saúde segue sendo não fumar, seja o cigarro tradicional ou o eletrônico.