Gordura trans aumenta doenças entre crianças, afirma especialista na Câmara

Gordura trans aumenta doenças entre crianças, afirma especialista na Câmara

Comissão de Defesa do Consumidor debateu propostas que regulam a presença desse componente nos alimentos industrializados?. Foto: Cleia Viana/Agência Câmara


Agência Câmara - A Organização Mundial de Saúde estabeleceu uma meta para 2023: que todos os países diminuam o consumo de gordura trans a 1% das calorias diárias da população. A gordura trans, chamada tecnicamente de ácido graxo, está presente em vários produtos industrializados, como biscoitos recheados, massas, sorvete e frituras.

Na audiência pública da Comissão de Defesa do Consumidor que debateu o assunto nesta quarta-feira (12), os especialistas mostraram que o maior consumo de gordura trans está diretamente relacionado ao aumento na ocorrência de doenças cardiovasculares. Isabela Sattamini, da Associação Brasileira de Nutrição, traz um dado ainda mais grave: boa parte da publicidade destes alimentos está direcionada ao público infanto-juvenil.

"A gente vem vendo cada vez mais a precocidade de doenças crônicas que antes a gente identificava só em adultos, em pessoas a partir de 60 anos de idade. A gente já começa a ver crianças às vezes com cinco anos com obesidade, colesterol alto e isso tudo é muito relativo à má alimentação e à gordura trans nesses alimentos", disse Isabela Sattamini.

Regulação dos alimentos

O representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Tiago Rauber, informou que o processo de regulação dos alimentos com este tipo de componente começou em 2015. Baseada nas experiências de outros países, a Anvisa trabalha com três opções, que têm percentuais diferentes de redução do uso de gordura trans tanto na fabricação quanto no produto final. A proposta de regulação deve ser aberta à consulta pública no segundo semestre deste ano.

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara examina um projeto de lei (7681/17) que proíbe o uso de óleos e gorduras parcialmente hidrogenados na fabricação de comida industrializada. Mas um texto alternativo ao projeto aceita até 5% dessa gordura em alimentos processados, o que, segundo os profissionais presentes à audiência pública, não é suficiente para deter o avanço dos problemas cardiovasculares. O deputado Felipe Carreras (PSB-PE), que pediu a realização do debate, quer reverter os parâmetros estabelecidos pela proposta em análise na CCJ.

"O Brasil ainda não está em sintonia com cerca de 28 países que já baniram a gordura trans ou o limite de 1% nos alimentos, ou seja, nós estamos atrasados. E agora, é a Câmara dos Deputados fazer a sua parte, atualizar a legislação, as leis que protejam o consumidor brasileiro para não estarem consumindo produtos maléficos para o nosso povo", disse.

Barreiras tecnológicas

Diretor da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), Alexandre Novachi diz que há um movimento, entre os fabricantes, para substituir a gordura trans, mas que ainda existem barreiras tecnológicas. Ele informou que entre 2008 e 2016, 310 mil toneladas deste componente foram retiradas dos produtos alimentícios feitos no país.

"O que a Abia defende é um processo regulatório, uma regulamentação que seja factível, que seja possível de ela ser não só implementada, mas também fiscalizada. Existem alguns exemplos, dentro do arcabouço regulatório brasileiro, de boas intenções, mas de soluções impraticáveis", disse.

Outro problema apontado durante a audiência pública diz respeito à rotulagem dos alimentos. Dados de uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostram que há 14 denominações diferentes para gordura trans nas embalagens. E que em 92% dos alimentos pesquisados havia mais gordura trans do que o rótulo informava.