Homens bem sucedidos ignoram cuidados com saúde

Homens bem sucedidos ignoram cuidados com saúde

 

O homem tem uma tendência natural a ser mais resistente a procurar um médico, seja para fazer exames de rotina ou mesmo diagnosticar algum problema alertado por um sintoma.

Na verdade, para muitos homens, exames gerais de caráter preventivo nem fazem parte de sua rotina. Ou seja, se a prevenção ou o tratamento de alguma doença passa pela mudança de hábitos, na maioria dos homens essa mudança se impõe antes disso, na tomada de consciência de que precisa cuidar de si, sobretudo à medida que o tempo passa e a idade avança.

"O homem gosta de lidar com aquilo que pode controlar e o que se passa com seu corpo é algo que foge do que ele domina", diz a psicóloga Rosângela Martins. Para ela, os homens em geral encontram dificuldade de expressar o que sentem e vivenciam uma ida ao médico como uma situação embaraçosa.

"Quando se trata, então, de homens bem sucedidos no trabalho, essa tendência aumenta e uma consulta médica, para um alto executivo de uma grande empresa, uma pessoa muito ocupada e sem tempo para atividades fora do ambiente de trabalho, é pouco produtiva".

 O fato, mais deduzido que comprovado estatisticamente, é que homens à frente de grandes empresas, sejam CEOs ou diretores executivos, tem menos tempo e interesse em cuidar da própria saúde.

Muitos crêem que a posição profissional, que se reflete na social, os altos honorários, o fato de coordenarem grandes equipes profissionais, contribuem com a ideia de que sua força produtiva, e vigor mental e físico sejam ainda maiores.

Segundo Mariângela, dados do Ministério da Saúde mostram que os homens realizam seis vezes menos exames preventivos que as mulheres. Em pessoas com esse perfil então, de patrões ou profissionais no topo da pirâmide dos Recursos Humanos, esse dado é ainda mais presente.

A psicanalista Denise Blanc tem a mesma interpretação. "A questão da subjetividade humana coloca o poder como uma situação privilegiada para poucos, em que a tomada de grandes decisões faz a pessoa achar que nada pode lhe acontecer, a ponto mesmo de esquecer-se da sua saúde".

No seu entender, quando homens bem sucedidos resolvem procurar um médico, além de a doença já estar em estado avançado, eles tratam de não dizer a ninguém que estão se tratando.

"Quando se trata de pessoas conhecidas, a notícia de uma complicação clínica afeta seus negócios, os rumos da empresa, enfim, o ambiente de pessoas bem sucedidas as impele a pensar primeiro nesse ambiente e só então em si mesmas".

Nas palavras de Rosângela Martins, "os homens são educados para não mostrarem suas fragilidades, não pedirem ajuda e detestam lidar com situações em que tenham dificuldade de administrar".

No caso de uma consulta médica, não é dele a orientação de como as coisas serão, a exemplo do que faz na empresa. "Homens bem sucedidos na vida profissional, que são e se sentem viris, não toleram a ideia de deixar se revelarem suas vulnerabilidades, a idade", complementa Denise Blanc.

Nesse ponto, outra psicóloga, Márcia Simpson, pondera que a cultura da estética, muito desenvolvida pela indústria de cosméticos a ponto de haver conquistado muitos clientes masculinos, pode contribuir para o homem tido como durão e dono de si se voltar mais para sua saúde.

"O cuidado com a aparência, o investimento na beleza leva à preocupação com a saúde como uma fundamentação mais séria desse movimento" afirma ela.

Márcia vê setores modernos da vida profissional, com alta tecnologia e envolvendo quantias volumosas de recursos como o mercado financeiro um bom celeiro para homens bem sucedidos, eficientes em seu trabalho - traço identificado também por Rosângela Martins -, ricos até, e com alguma doença se desenvolvendo.

Esse biotipo, na visão de Rosângela, direciona sua energia somente para o trabalho. "Desfocado do seu corpo, ele tende a escutar bem menos os pequenos sinais dados pelo organismo", diz a psicóloga, para quem o homem bem sucedido, ao sentir dor, imagina ser capaz de resolver a questão de alguma forma que não pela consulta médica.

"Acostumados a resolver tantas coisas no trabalho de forma produtiva e eficiente, eles não querem perder tempo esperando resultados de exames, por exemplo, e veem consultórios médicos como lugar para idosos, mulheres e crianças", afirma.