Segredo para o coração saudável: colesterol baixo por longo prazo

Segredo para o coração saudável: colesterol baixo por longo prazo

Evitar o colesterol alto não é algo que deve ser feito de forma pontual, mas como condição para toda a vida. Quanto mais tempo a pessoa mantém o colesterol em níveis baixos, maior o benefício para a saúde do coração. Quanto mais tempo o corpo está exposto a níveis altos de colesterol, maior o desgaste e os riscos de desenvolver doenças. 

Esse é um dos alertas do médico cardiologista Francisco Antonio Helfenstin Fonseca, presidente da Sociedade Latino-americana de Aterosclerose, ex-presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

Livre-docente de Cardiologia da Escola Paulista de Medicina e chefe do setor de Lípides, Aterosclerose e Biologia Vascular da mesma escola, o Dr. Francisco Fonseca explica nessa entrevista como o tratamento continuado ajuda a evitar problemas cardíacos e as principais diferenças de quem adquire problema com colesterol alto e quem enfrenta essa dificuldade devido a uma doença genética, a hipercolesterolemia familiar (também conhecida como HF).

O cardiologista avisa que com a exposição a níveis elevados de colesterol aumenta muito a chance de manifestações coronárias, especialmente para a maioria dos homens após 40 anos e mulheres depois dos 50 anos. Confira:

Portal Ser Informação - Muito se fala em colesterol baixo, níveis ideais de colesterol, mas ainda há muitas dúvidas sobre os índices limites para considerar um paciente com colesterol alto. Qual a indicação?
Dr. Francisco Fonseca - Quando a pessoa faz um exame laboratorial, há os índices de referência. As diretrizes nacionais e internacionais indicam que bom é um índice de LDL (tipo de lipoproteína que transporta o colesterol no sangue, também chamada de mau colesterol) menor que 70 - e já existe uma proposição futura de considerar ideal menor que 50. Esses números mudam de acordo com os avanços nas pesquisas. Até pouco tempo era considerado ótimo o índice menor que 100. Hoje sabemos que para um paciente coronariano, por exemplo, ou com ponte de safena, é um número alto.

Portal - O senhor ressaltou a necessidade de considerar se o paciente tem problemas cardíacos na hora de avaliar se o colesterol está bom. O perfil do paciente influencia?
Dr. Fonseca - Influencia, sim. Considerar o perfil do paciente é essencial. Há estudos mostrando que ter um valor próximo de 50 é melhor que 70, especialmente para quem tem histórico cardíaco. Mas para uma pessoa na faixa de 20 anos, que faz atividade física, tem uma dieta saudável e apresenta colesterol de 120, 130, por exemplo, podemos continuar com a dieta, talvez incluir alimentos funcionais e acompanhar, sem a necessidade de indicar medicamentos para reduzir o colesterol. Se esse mesmo jovem tem índices de 200, 300, vou dar remédio e indicar redução dos exercícios. É diferente de alguém com 110 que já teve infarto. É preciso analisar individualmente e no contexto dos ancestrais.

Portal - Quando o senhor fala de ver o contexto dos ancestrais refere-se à hipercolesterolemia familiar (HF), que é o desenvolvimento do colesterol alto por questões genéticas? 
Dr. Fonseca - A hipercolesterolemia familiar é uma das doenças genéticas mais frequentes que a gente tem. Não temos levantamento preciso no Brasil, mas se estima que a relação é de uma pessoa com HF para cada 250 ou 300 sem a doença. 

Portal - Essa doença genética ainda deixa muitas dúvidas. O que é, afinal, a hipercolesterolemia familiar, a HF?
Dr. Fonseca - A HF é uma doença genética que se caracteriza por níveis bastante aumentados do colesterol. Devido a esse nível, existem manifestações precoces de ataques cardíacos, necessidade de cirurgias, pontes de safena, angioplastia etc.

Portal - Qual a diferença de um organismo que tem HF para o que não tem?
Dr. Fonseca - Só há um jeito de o organismo eliminar colesterol: no fígado, pela bile. Há receptores que captam o LDL que fica ancorado na membrana do fígado e o conduzem para dentro do fígado, onde ele é degredado para ser metabolizado e eliminado. O receptor volta então para a superfície, para a membrana da célula para captar outro LDL. Cada receptor executa essa tarefa de 100 a 150 vezes antes de um novo receptor surgir. Na pessoa com HF, a quantidade de receptores é menor e, assim, o LDL acumula no sangue. Quanto menos receptores, maior a gravidade e a precocidade das doenças cardíacas.

Portal - Há formas mais brandas e mais graves de HF?
Dr. Fonseca - A forma mais comum é a heterozigótica, que citamos, que acomete 1 pessoa a cada 250 ou 300. Mas há formas muito mais graves dessa doença - felizmente mais raras, atingindo uma pessoa a cada 60 mil ou 200 mil. Nesses casos o nível de colesterol é muito mais elevado e o paciente já pode ter manifestações da doença ainda na infância, adolescência ou início da fase adulta. Há casos de crianças que colocam ponte de safena com 13 anos.

Portal - Como é feito o diagnóstico do HF?
Dr. Fonseca - Nos casos mais graves há sinais físicos, que são detectados no exame clínico. Nos olhos, por exemplo, onde tem a íris, quando o colesterol está alto fica com uma borda amarela acinzentada. Outro sinal é a constatação de acúmulo de colesterol debaixo da pele: pode ficar junto dos olhos - um depósito de gordura meio amarelada, que não é exclusivo da HF mas pode estar associado ao colesterol elevado. Também há acúmulo junto aos tendões dos pés, no calcanhar, e nos tendões das mãos.

Portal - E como diferenciar o colesterol comum do que tem origem em doença genética?
Dr. Fonseca - A maioria dos pacientes não tem sinais presentes; é preciso se basear no nível de colesterol. Devemos levantar a suspeita de HF especialmente se a pessoal tem colesterol acima de 190. Também verificar se há casos na família, principalmente dos pais e irmãos, e se a pessoa já tem doença coronária instalada. Uma das consequências do HF é o desenvolvimento de doenças coronárias prematuras. 

Portal - Existe um levantamento genético?
Dr. Fonseca - É possível fazer o sequenciamento genético para verificar se há variação, só que existem mais de 1.700 mutações. O processo é demorado e não acessível no dia a dia. E mesmo quem tem HF nem sempre consegue diagnóstico genético - são várias proteínas envolvidas nesse processo. O diagnóstico genético não atinge mais de 80% dos casos. O diagnóstico do HF acaba sendo bastante clínico.

Portal - Há tratamento para o colesterol originado por doença genética?
Dr. Fonseca - Sim. Nos casos leves de HF é possível obter o controle do colesterol com mudanças no estilo de vida. Quando é feita orientação nutricional, consegue redução de 15 a 20% nos níveis. Com uma mudança profunda é possível até diminuir 30% ou mais no LDL. Nos casos mais graves é preciso utilizar medicamentos. Essas reduções são insuficientes para quem tem um índice muito alto, chegando a 300, 400, 500 de LDL.

Portal - Como é o tratamento com medicamentos?
Dr. Fonseca - Os remédios são combinados para atuar em diferentes pontos, como medicamento para bloquear a absorção do colesterol e outro para melhorar o funcionamento dos receptores, por exemplo. Para as duas formas de HF houve avanço nos medicamentos. Antigamente, não havia possibilidade de atingir um nível adequado de colesterol para quem tinha essa doença. O paciente precisava passar pela filtragem do sangue para retirar o excesso do colesterol. Outra possibilidade era a realização de cirurgia para diminuir a absorção de colesterol. Isso nas décadas de 1980 e 1990.

Portal - Quais os avanços nessa área?
Dr. Fonseca - Os medicamentos atuais abaixam o colesterol de maneira significativa, garantindo qualidade e expectativa de vida como alguém que não tem esse problema.

Portal - Com os novos medicamentos melhorando a qualidade de vida do paciente com colesterol alto, quais as principais dificuldades em relação à doença?
Dr. Fonseca - A falta de diagnóstico é a principal dificuldade. Embora haja no Brasil umas 800 mil pessoas com HF, acredita-se que menos de 1% desses casos estejam diagnosticados e tratados. Sem o diagnóstico precoce o risco é grande de ataque cardíaco e morte. 

Portal - Muitas pessoas abandonam o tratamento quando há melhora do índice do colesterol. Em que isso prejudica o paciente?
Dr. Fonseca - No Brasil, a média do tratamento é de três a seis meses, quando o paciente abandona o acompanhamento. Com a exposição do organismo a níveis altos, o colesterol vai se infiltrando nas paredes dos vasos, que inflamam, podendo causar coagulação, que leva ao infarto. 

Portal - E quais as vantagens para o organismo de dar continuidade ao tratamento, mantendo o colesterol baixo?
Dr. Fonseca - Dar sequência ao tratamento é essencial porque quanto mais tempo você mantém o nível do colesterol baixo, maior o benefício e redução do risco de ataques cardíacos e infartos. Se a pessoa reduz o nível de colesterol a um índice médio por pelo menos um ano, diminui em 11% o risco. Com seis anos de tratamento, a diminuição pode chegar a 50%. Quanto maior a redução do LDL, maior o benefício. Além disso, nas décadas de 1970 e 1980, pacientes que sofriam infarto continuavam sentindo constantemente dores no peito, tendo que passar por novas intervenções. Com a redução do colesterol, passou a ser minoria a quantidade de pacientes que precisam voltar para a mesa de cirurgia e diminui o registro de dores constantes pós infarto.

Portal - As pessoas param o tratamento por medo de os remédios causarem efeitos colaterais? 
Dr. Fonseca - Essa preocupação não é necessária, porque os estudos demonstram que a medicação não causa alterações com problemas renais, hepáticos ou nas funções cognitivas. É muito mais seguro tomar remédio para controle do colesterol do que tomar aspirina.

Metas para os portadores de HF:

Para quem já teve infarto ou tem diabetes: manter o LDL menor que 70

Nunca teve manifestação de doença cardíaca: LDL menor que 100

Crianças e adolescentes: LDL menor que 135