Promoção de saúde do homem deve começar desde a infância

Promoção de saúde do homem deve começar desde a infância

Debate sobre Políticas Públicas, promovido pelo LAL, reúne especialistas que sugerem caminhos e oportunidades para mudar o atual cenário da atenção dada ao brasileiro


A promoção da saúde do homem precisa ser uma prioridade para o poder público, os profissionais da área e a população em geral e deve começar desde a infância. Este foi o tom da segunda parte do Seminário de Políticas Públicas sobre Saúde do Homem, promovido pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, na manhã do dia 4 de abril, no Sheraton São Paulo WTC Hotel, durante o X Congresso Internacional de Uro-oncologia. A mesa redonda "Ser Homem no Brasil" e o debate "As políticas públicas e a linha de cuidados para a saúde do homem" tiveram mediação do oncologista André Sasse, diretor presidente do Grupo SOnHe, diretor técnico do Radium Instituto de Oncologia e chefe do departamento de oncologia do Hospital Vera Cruz de Campinas.

 

"Nosso intuito é discutir o que é ser homem no Brasil, além das enfermidades, mazelas e agravos que afetam a saúde da população masculina. Hoje se discute muito sobre masculinidade e toxicidade e, por outro lado, ainda vivemos em um país muito agarrado às tradições", salientou Sasse, ao abrir a segunda parte do seminário, que tratou das vulnerabilidades e riscos à saúde da população masculina, destacando as especificidades socioculturais da sociedade e a importância da prevenção e do autocuidado.

Mesa Redonda "Ser Homem no Brasil", com participação de representantes da Secretaria Municipal da Saúde, Ministério da Saúde, OPAS e SENAR

A mesa redonda "Ser homem no Brasil" discutiu as vulnerabilidades e riscos à saúde do homem. Foto: Panóptica. 

Para a médica sanitarista da Atenção Básica da Saúde do Homem da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, Suely Miya, a promoção da saúde precisa acontecer desde o início da vida. "Hoje tentamos ensinar aos adultos hábitos de vida saudáveis, mas precisamos fazer isto muito antes. Nossas crianças precisam ser alfabetizadas em Saúde, porque elas serão o adulto de amanhã. Quantos anos mais vamos precisar para conscientizar o cidadão que ele deve comer direito, praticar atividades físicas e evitar o stress para prevenir doenças cardíacas, respiratórias e o câncer?", colocou Miya.

Apesar de ter que superar muitos problemas, o Brasil está mais avançado do que outros países da América Latina, quando se trata de políticas públicas para a saúde do homem, segundo avaliação da coordenadora da Unidade Técnica de Família, Gênero e Curso de vida da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), Haydee Padilla. "O Brasil é o único país da região que tem uma política pública de saúde para o homem e há espaço para aperfeiçoar a área. Esta é uma luta que precisa entrar na agenda da OPAS para mudar a realidade da região em relação à saúde do homem. Estamos elaborando um documento sobre o tema para apresentar para todos os ministros de Saúde da América Latina", explicou Padilla.

A coordenadora da OPAS destacou ainda que o envelhecimento da população será um desafio para o Brasil na área de saúde. "Os homens morrem antes do que as mulheres, mas agora morrem mais tarde. Em 2036, o Brasil vai ter mais idosos acima de 65 anos do que crianças entre zero e 14 anos. Os sistemas de saúde vão ter que lidar com esta nova realidade e trabalhar com a prevenção de doenças", expôs Padilla.

O Brasil criou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem em 2009 com o objetivo de promover ações de saúde para a população masculina nos diferentes contextos socioculturais e político-econômicos, através do Sistema Único de Saúde (SUS). "Quando foi criada, a ideia era empoderar o homem do seu cuidado. Este homem, da faixa etária de 30 a 59 anos, era levado para a atenção básica pela mãe ou pela avó. Então, a política, que incialmente surgiu para reduzir a mortalidade, passa hoje a olhar pela perspectiva das masculinidades, ou seja, da cultura que o homem está inserido e como isto contribui para as questões de saúde e adoecimento", explicou o coordenador Nacional de Saúde do Homem, Francisco Norberto Moreira da Silva.

O tamanho do país e a diversidade de realidades são desafios a serem superados e trabalhados na definição das políticas públicas para saúde do homem. "A política de saúde do homem tem a transversalidade como desafio. Para atingir toda a população masculina do país, ela precisa conversar com as outras políticas que estão dentro do Ministério da Saúde, como a da população negra, indígena, quilombola, etc. Porque a população masculina também está sendo cuidada nestas outras políticas. Cuidar do homem precisa trabalhar com estes vários olhares", destacou Silva.

Para a médica oncologista e paliativista, Priscila Bernardina Miranda Soares, este olhar mais amplo é necessário para conseguir tratar o indivíduo com respeito. "Precisamos abarcar esta diversidade e respeitar profundamente a pessoa que está na nossa frente. Durante toda a minha experiência, eu percebi que o maior gargalo para o homem são o medo e a desinformação. Em Montes Claros (MG), onde atuo, o acesso a um urologista varia de 9 meses a um ano, quando se usa o SUS. Muitos não tiveram diagnóstico precoce por falta de informação e por não conseguir ver um especialista", disse Soares, informando que a partir desta constatação, foi criado na cidade um mutirão anual de prevenção ao Câncer. A 9ª edição, que terá a participação do LAL, acontece no próximo dia 12 de abril, na praça central da cidade mineira.

As campanhas promovidas pelos governos e instituições de Saúde ou da sociedade civil precisam atingir todas as populações do país, entre elas, a população rural. Segundo a coordenadora da Diretoria de Educação Profissional e Promoção Social (DEPTS) do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), Deimiluce Lopes Fontes, a qualidade do que consumimos passa pela qualidade de vida desta população. "A qualidade do leite e do queijo que consumimos passa pela qualidade de vida do seu manipulador primário, que é o ordenhador. Ele precisa saber como higienizar as mãos corretamente para garantir que o produto que chega às fábricas não precise de muitos produtos químicos. Se as campanhas não conversarem com as diferentes realidades, os homens de determinados locais e estratos sociais morrerão sem nem saber o motivo", ponderou Fontes.

Outra questão levantada durante a discussão foi a diferença entre tratamentos disponíveis na saúde suplementar e no SUS. Ela precisa ser trabalhada para que a promoção da saúde e a prevenção de doenças sejam uma realidade para toda a população brasileira. "Temos que melhorar o acesso do paciente. Não podemos aceitar as condições diferentes de tratamentos existentes na saúde suplementar e no SUS. Há casos de pessoas que chegam em nossa instituição e morrem depois de uma semana. Não podemos aceitar essa realidade do diagnóstico tardio de doenças graves que atingem os pacientes do SUS", afirmou a presidente do LAL.

Os usuários de planos de saúde também têm enfrentado problemas para marcar consultas, exames e procedimentos, mesmo pagando pelo serviço. "A situação é caótica e problemática, mas não apenas no SUS. Quando analisamos a saúde suplementar, vemos situações que são chocantes, piores e com condições mais deficientes que no sistema público. O problema é o que estamos fazendo com a saúde no Brasil. Se não houver uma grande discussão, unindo pessoas que estão fazendo um bom trabalho em suas áreas, não teremos uma mudança significativa. Temos que achar uma fórmula para a realidade do nosso país", afirmou o membro do Comitê Científico do LAL, o cardiologista Marcelo Ferraz Sampaio.

Para o urologista Sebastião Westphal, a mudança e o fortalecimento da linha de cuidados para a saúde do homem deve passar por parcerias entre as entidades médicas e o Ministério da Saúde. "Temos muito a contribuir, principalmente, trabalhando em parceria com o Ministério. Hoje, ele tem um projeto piloto em andamento em Brasília que realiza o treinamento de agentes de saúde da rede básica para rastrear o câncer de próstata e isso pode ser replicado no Brasil inteiro, com a ajuda dos urologistas, por exemplo. Não se faz uma linha de cuidado de um dia para o outro, mas até que ela seja realidade para todos, é preciso resolver o gargalo do paciente que está desassistido, esperando um tratamento", concluiu Westphal.

O Seminário de Políticas Públicas sobre Saúde do Homem reforçou mais uma vez que incentivar o diálogo entre os profissionais da saúde, os pacientes e a população brasileira é o caminho para promover mudanças na sociedade e gerar ações efetivas dos órgãos do Governo e centros de referência na promoção da saúde do homem.  A realização do evento demonstra que o LAL está comprometido em construir essa mudança, disseminando conteúdo de qualidade e alertando sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da adesão do paciente ao tratamento.

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