O Nordeste ganhou, no último dia 30 de outubro, um novo compromisso coletivo contra o câncer. Durante o Diálogo Saúde Regional Nordeste, realizado na sede da Liga Contra o Câncer, em Natal, instituições de saúde e gestores públicos firmaram a Coalizão OncoNordeste, uma agenda regional de cooperação contra o câncer que tem a eliminação do câncer do colo do útero como primeiro desafio.
Com o tema “A força da Atenção Primária na transformação da oncologia”, o evento foi promovido pelo Instituto Lado a Lado Pela Vida em parceria com a Liga Contra o Câncer. A programação reuniu grandes nomes da oncologia no país, além de representantes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), do Ministério da Saúde, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), de secretarias estaduais e municipais de saúde.
A pergunta que guiou o dia foi direta: o Nordeste está preparado para eliminar o câncer do colo do útero? As respostas vieram em forma de debates, trocas de experiências e, ao final, de um compromisso assinado.
O que é a Coalizão OncoNordeste
A Coalizão OncoNordeste é uma agenda regional de cooperação para fortalecer a prevenção, o diagnóstico oportuno e a continuidade do cuidado oncológico no SUS. Ela reúne estados, municípios, serviços de saúde, organizações da sociedade civil e parceiros nacionais e internacionais, respeitando as atribuições de cada instituição.

A adesão foi formalizada em uma Carta de Adesão e Compromisso Institucional, assinada no encerramento do evento. O documento coloca a Atenção Primária à Saúde como coordenadora da linha de cuidado e tem como finalidade reduzir desigualdades e fortalecer a atenção oncológica no Nordeste.
“Sabemos que o combate ao câncer é um ato coletivo, e temos orgulho de liderar esse caminho ao lado de instituições e órgãos de saúde tão relevantes para a região”, afirma Marlene de Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado Pela Vida.

Colo do útero: o primeiro desafio
A agenda da coalizão conecta prevenção, rastreamento, investigação diagnóstica, tratamento e seguimento. O câncer do colo do útero foi escolhido como o primeiro desafio demonstrador, sem limitar a atuação futura a esse tipo de câncer. As frentes de trabalho são:
- Fortalecer a vacinação contra o HPV e a busca ativa de pessoas com a vacina em atraso
- Apoiar a implantação do rastreamento organizado, incluindo o teste de DNA-HPV de alto desempenho
- Qualificar os fluxos entre Atenção Primária, regulação, serviços diagnósticos e atenção especializada, para que cada etapa seja concluída no tempo certo
- Compartilhar boas práticas, resultados e aprendizados entre os territórios, adaptando-os às diferentes realidades do Nordeste
O que as instituições assumem
Ao aderir, cada instituição reconhece a coalizão como rede colaborativa regional e se dispõe a contribuir dentro de suas competências. Entre os compromissos estão indicar um ponto focal institucional, compartilhar conhecimento técnico e experiências, e apoiar a avaliação dos ciclos de trabalho.
A forma de participação varia conforme o papel de cada signatário:
- Gestores estaduais e municipais apoiam a pactuação territorial e a articulação com a rede assistencial
- Instituições de saúde, ensino e pesquisa contribuem com assistência, qualificação, avaliação e inovação
- Organizações da sociedade civil apoiam a mobilização, a comunicação e a identificação de barreiras
- Parceiros nacionais e internacionais colaboram com cooperação técnica e troca de experiências
A carta respeita a autonomia federativa e as instâncias de governança do SUS, sem criar estruturas paralelas. O acompanhamento prioriza informações agregadas e não identificáveis, e a assinatura não autoriza o compartilhamento de dados pessoais de saúde. A adesão é uma manifestação de apoio institucional, não cria obrigação de despesa nem repasse de recursos, e vale por 24 meses, podendo ser renovada.
Um câncer que pode ser eliminado
O câncer do colo do útero é um dos poucos tipos de câncer que podem ser eliminados. Por isso, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu as metas 90–70–90, que servem de referência para a Coalizão OncoNordeste:
- 90% das meninas vacinadas contra o HPV até os 15 anos
- 70% das mulheres rastreadas com teste de alto desempenho aos 35 e aos 45 anos
- 90% das mulheres com lesões precursoras ou câncer devidamente tratadas
Grande parte desse caminho passa pela Atenção Primária. A vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, e o rastreamento é feito na unidade básica de saúde, perto de onde as pessoas vivem. É ali que se identifica cedo, acompanha e encaminha no tempo certo — e foi justamente esse o foco dos debates do Diálogo Saúde Regional Nordeste.
O desafio em números
O Nordeste deve registrar cerca de 115,7 mil novos casos de câncer em 2026, sem contar o câncer de pele não melanoma, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Próstata e mama lideram o ranking na região, seguidos pelos cânceres colorretal, de pulmão e do colo do útero.
Entre as mulheres nordestinas, o câncer do colo do útero é o segundo mais frequente, atrás apenas do câncer de mama. É também um tipo que pode ser prevenido com vacinação e rastreamento. Muitos desses casos podem ser identificados mais cedo quando a Atenção Primária está fortalecida — e é aí que a coalizão pretende atuar.
Um compromisso com o futuro
O Diálogo Saúde Regional Nordeste foi um dia de trocas, conexões e compromissos pelo futuro da saúde oncológica na região. Com a Coalizão OncoNordeste firmada, as instituições participantes passam a trabalhar juntas para fortalecer a prevenção, o rastreamento e a detecção precoce do câncer.
Para o Instituto Lado a Lado Pela Vida, a Coalizão OncoNordeste traduz o propósito que move a organização desde 2008, que é garantir que todos os brasileiros tenham informação e acesso a uma saúde digna e de qualidade, em todas as fases da vida. Com atuação dedicada ao câncer e às doenças cardiovasculares, e um eixo de trabalho voltado à Atenção Primária e à saúde populacional, o Instituto seguirá mobilizando parceiros, gestores e sociedade civil. O objetivo é que os compromissos firmados em Natal se transformem em mais vacinação, rastreamento no tempo certo e vidas salvas no Nordeste.