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Besame mucho

A crise econômica na Europa, iniciada há quase dez anos, separou mais de 250 mil jovens italianos de suas famílias. Formados e especializados, detentores de doutorados ou cursos de nível superior, optaram por imigrar para países com mais oportunidades de trabalho. Como muitas, minha família também foi vítima desse fenômeno e se fragmentou: uma filha em Portugal, o filho na Holanda. Empregos precários, nenhuma garantia de carreira e zero perspectivas afastaram boa parte da juventude de seu habitat nativo, de seu círculo de amizades e de seus costumes. O surto de Covid-19 obviamente deixou pedaços de nossas famílias espalhados pelo mundo.

Com o lockdown roubando inteiramente a primavera e a necessária interdição de cruzar qualquer fronteira senão a do próprio condomínio, ficamos ‘freezados’, distantes, cada um torcendo e rezando pelo outro, protegidos e tentando proteger nossos queridos. No meu caso, além dos filhos distantes, tenho mãe, irmãos e muitos parentes do lado de lá do Oceano, no Brasil.

Nesta situação, a normalidade parecia uma quimera até que… os números finalmente começaram a cair e nos fizeram esperançar. Dia após dia, os boletins médicos divulgados eram mais otimistas, dava gosto ler as notícias do bem e confortava ver imagens de leitos e corredores vazios nos hospitais na Itália.

Com toda a cautela, comércio, bancos, escritórios e feiras livres abriram as portas. Devagar, poucos por vez, pudemos retomar nossas atividades. O trânsito de Roma engrossou, os carros da polícia sumiram dos grandes cruzamentos e rotatórias, e para circular não era mais preciso assinar algum termo de responsabilidade. 

Namorados, trabalhadores, famílias que tiveram suas vidas divididas pelas fronteiras das regiões barradas podem hoje se reunir. Desejos e planos compensam agora o tempo perdido durante o isolamento: três meses de telefonemas, vídeo-chamadas, cartas e mensagens são quase uma lembrança. Embora ainda haja restrições, podemos nos mover de um país ao outro, dentro do continente: é o primeiro abraço após a emergência. 

Também em fins de junho, as companhias aéreas lowcost recomeçaram a voar. É graças a elas que costumo visitar meus jovens, algumas vezes por ano, aproveitando as tarifas de ‘pechincha’, hoje mais do que nunca baratas. Sim, existe o limite de embarcar apenas pequenas valises de mão, é imprescindível um espírito bem esportivo e botar na conta um considerável tempo de fila, por vezes na pista do aeroporto em pleno inverno, mas vale tanto a pena que a gente topa tudo. 

Quando começamos a sentir que em breve estaríamos liberados para viajar, aliviada, arrisquei 60 euros num ‘ida e volta’ de Roma para Lisboa, e o mesmo fizeram, de Eindhoven, o filho ‘holandês’ e sua esposa. Minha nora é da Moldávia, pequena república ex-soviética. Deixou seu país para estudar, acabou encontrando o amor e por aqui foi ficando. É muito querida. 

O reencontro, ficou decidido, seria em terras lusas, onde tínhamos à nossa espera também um brinde especial, pois neste meio tempo veio ao mundo minha primeira neta e o primeiro sobrinho para eles! Criatura amada, a bebê aguardava a nonna e os tios com um sorriso aberto no olhar e nas bochechas, surpresa também ela com tanta gente chegando em casa. 

Nascida em pleno lockdown, ela não conhece boa parte de sua família brasileira. Claro, num grupo tão cosmopolita, só faltava um genro gaúcho para fechar o ciclo e enriquecer de brasilidade o pelotão de imigrantes. A nenê, pequenina, já usa macacão gremista. 

Lisboa é uma cidade acolhedora. Dizem que parece uma ‘Paris em miniatura’, o que concordo, com uma ressalva: parece que estamos em casa. Todos de fora, vindos de realidades diferentes, mas reunidos e, principalmente, finalmente reabraçados, ao redor de uma nova vida, entrevendo o amanhã, como antes disso tudo.

*Cristiane Murray é formada em administração de Empresas pela PUC-RJ. Vive na Itália, onde aprendeu a ser jornalista e por vários anos integrou a equipe brasileira da Rádio Vaticano. Envolvida em temáticas sociais e ambientais, participou de todo o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, tendo sido em seguida nomeada pelo Papa Francisco como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé.

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