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Carta, e flores, para uma ex-amiga

Querida amiga, por que nos perdemos de vista? Difícil responder. Hoje em dia, basta um click para encontrarmos qualquer um. E eu te procuro, te acho, mas você não corresponde. Não brigamos, não nos traímos, não houve polêmicas paralela, simplesmente não nos falamos mais.

Quanto tempo passou desde a nossa última conversa? Quantas vezes me pego pensando nisso e relembrando tantos momentos como nossa viagem, que sonhávamos desde meninas, pelo mundo afora. Foi um ano inteiro com mochila nas costas, pouca grana, muita curiosidade e ainda mais coragem. Quem como nós viveu uma experiência como aquela? Não tem como esquecer, mesmo que décadas se tenham passado.

Os dias de farra e as broncas recebidas no colégio, as casinhas para nossas Barbies construídas na escada de sua casa e o iê-iê-iê dançado no jardim da minha. Se não bastassem as fotos nos álbuns de nossas famílias, existe sempre a memória de cada uma de nós que nos recorda. Então por que deixar o tempo esquecer a nossa amizade?

Ano passado, em minha última vez no Brasil, passei alguns dias com duas amigas conhecidas na adolescência e com nossos maridos. Fomos a um lugar bem selvagem, uma ilha de pouco movimento, fora de estação. Pausa de relax programada com antecedência, pois cada uma de nós mora num país diferente. Foi antes do ‘corona’ chegar ao planeta, nós nem podíamos imaginar o que aconteceria meses depois.

Que delícia de férias. Ouvir as pessoas falarem português ao nosso redor, comer feijão com arroz, peixe frito e farofa sentindo o cheirinho do nosso tempero e devolvendo ao paladar sabores que só a nossa terra natia sabe oferecer. O gostinho que o brasileiro sente quando volta ao país e sente seus perfumes é algo privilegiado. Cada imigrante é saudoso de sua terra.

Naqueles dias, costumávamos seguir uma rotina: no finalzinho da tarde, regadas a uma caipirinha taxativamente de limão, dávamos uma nadada no mar. No silêncio colorido pelo por do sol, ou dizendo bobagem, ríamos até engasgar, a água salgada e morna até o pescoço.

Gargalhadas sonoras, plenas de felicidade, cumplicidade e saudade atrasada. Eu fixava bem aqueles momentos no coração pensando na beleza da vida, ‘quero lembrar para sempre’. À beira dos 60, brincar como meninas, uma sensação bastante infantil, mas para mim (e para elas), creio eterna.

Querida amiga a quem escrevo esta carta, nossa amizade é guardiã de tantos segredos. Nós a construímos a partir de coisas ditas e compartilhadas, mas de muitas coisas também não ditas, e por esta razão, ainda mais compartilhadas. Conhecemos nossos segredos, mesmo os não revelados, porque o essencial pode até permanecer indizível, mas certamente aos nossos olhos não é invisível.

Escolhemos nossos amigos porque são capazes, ou com o tempo, vão ficando espertos em nos conhecer e aceitar. Para alguns, podemos contar as coisas pela metade, que a outra parte eles adivinham, intuem, já sabem. É tão prazeroso! A eles confiamos preocupações, ideias e opiniões em total liberdade; não tem cerimônia com amigos e amigas.  Sem amigos – já dizia o grande pensador Aristóteles –  ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens.

Mas na vida de todos, há momentos em que se pergunta se um relacionamento ainda vale a pena ser vivido. Finalmente comecei a ouvir os sinais que chegaram a mim em centenas de tentativas de reatar nosso ‘feeling’ nas últimas décadas, e decidi não mais me opor ao caminho natural de nossos sentimentos. Você deve ter suas razões. Vivo no presente e me projeto no futuro, consciente que guardar do passado apenas emoções positivas é um sonho, mas a você, minha ex-amiga, digo ‘obrigada’ por ter sido parte dele.

*Cristiane Murray é formada em administração de Empresas pela PUC-RJ. Vive na Itália, onde aprendeu a ser jornalista e por vários anos integrou a equipe brasileira da Rádio Vaticano. Envolvida em temáticas sociais e ambientais, participou de todo o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, tendo sido em seguida nomeada pelo Papa Francisco como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé.

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