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Coronavírus: uma guinada para a Humanidade?

“Nada será como antes”. “Vamos aprender muito com a crise”. “Vamos pensar seriamente e evitar a destruição do meio ambiente”. Quantas vezes ouvimos frases assim nos últimos meses, e as repetimos também, confiantes que a lição trazida pelo vírus vai nos ensinar muito… Mas será mesmo assim? 

Que delícia ver em nossos grupos de whatsapp os vídeos de golfinhos em Veneza, tartarugas marinhas na Baía de Guanabara, lebres, esquilos, pássaros nunca vistos nas cidades… A natureza foi reconquistando seus próprios espaços, ocupando o vazio da ausência do homem. O ar nunca esteve tão puro; a primavera em Roma castiga severamente os alérgicos, como eu, que acordam espirrando e lacrimejam o dia todo por causa da chuva de pólens nestes lindos dias de sol. 

Ficamos repentinamente mais tolerantes, mais bonzinhos… Ao fazer compras no supermercado – atividade que improvisadamente se transformou em um programa super atraente (é quase a única permitida por aqui) – trocamos sorrisos com funcionários que nunca havíamos notado, cedemos nosso lugar na fila aos mais idosos, enfim, nos armamos de uma paciência de Jó.

Começamos até a curtir a cozinha, aquele cômodo da casa onde em geral passávamos correndo, só o tempo de esquentar (ou requentar) e lavar o indispensável rapidamente. Em dois meses de completo ‘lockdown’, o fogão ganhou um lugar importante, virando meu parceiro! Resgatamos o gosto de ‘preparar’ a refeição, de pensar no que fazer para o almoço e o jantar, em escrever a lista do que comprar para que o apetite, que ficou mais feroz com o trabalho remoto, fosse satisfeito com mais prazer. 

Vamos vivendo, muitos infelizmente, na solidão. Na Itália, estamos sem nos encontrar com os amigos há mais de dois meses. Desde o dia 4 de maio, quando entrou em vigor o último decreto do governo válido em todo o país, podemos visitar apenas parentes próximos, e mesmo assim, poucos de cada vez. Nada de reuniões de família. 

E de março para cá, cada vez mais países se blindaram à medida que as horas iam passando: cerca de 2,6 bilhões de pessoas foram obrigadas a se fechar em suas casas. Nada disso estava previsto, o mundo inteiro foi apanhado de surpresa, amordaçado e desarmado. Nem o mais criativo escritor de ficção teria sido capaz de imaginar um tal cenário. O coronavírus o concretizou em poucas semanas e a resposta da ciência pode levar, na melhor das hipóteses, um ano: o tempo para encontrar uma vacina e testá-la. 

Enquanto existe o risco de que qualquer relaxamento das restrições possa elevar a curva de contágio, a componente psicológica das consequências do isolamento social é subestimada. O que vai realmente mudar? Com certeza, nossos hábitos serão revistos em todos os campos, da educação à vida afetiva, da possibilidade de fazer carreira profissional até ver os nossos amados. Com custos humanos, econômicos e psicológicos nunca antes estudados.

Porque o que emerge é que o medo do vírus não é principalmente um medo de saúde, mas o pavor pela perda de alguém querido se acumula com a insegurança pessoal, especialmente em termos econômicos. Tememos pelo trabalho, pela economia, pela escola, pelo pânico e pelas atitudes irresponsáveis de outros cidadãos. 

Por outro lado, temos visto muitas, e todas dignas de nota, experiências de voluntariado e bem-estar surgidas espontaneamente neste tempo, quase como que para demonstrar que quando existe uma condição de emergência, o compromisso com o próximo é rapidamente ativado. A empatia se despertou. 

Alimentados pelo testemunho dos profissionais de saúde e voluntários na linha de frente na luta contra a epidemia e encorajados pelos resultados do sacrifício coletivo, tentamos ainda respeitar o isolamento imposto, mas convenhamos, agora com menos sorrisos.

Passamos do slogan “Andrà tutto bene” (Tudo vai ficar bem) e do uníssono hino nacional cantado às 18h em todas as janelas do país ao “Io resto a casa” (“Eu fico em casa”) ao silêncio do entardecer. De uma frase proclamada como um mantra à dúvida e à ‘paura’ de que não conseguiremos nos reerguer, de que nossos políticos não são adequados e que a economia não será capaz de se reaquecer. Entrevemos, todos, o monstro no horizonte, quase mais assustador do que a emergência. 

Retornamos então às nossas questões iniciais: como nos adaptar ao novo mundo? Delegamos aos nossos governantes o desafio de definir regras e sistemas de controle que equilibrem a proteção da vida humana e o respeito pela sua dignidade. Quanto a nós, cabe-nos fazer a escolha: voltar ao passado ou redesenhar um futuro? Pessoalmente, gosto de pensar na esperança deixada por Aldir Blanc, poeta levado embora pelo vírus: “Uma dor assim pungente… não há de ser inutilmente”.

*Cristiane Murray é formada em administração de Empresas pela PUC-RJ. Vive na Itália, onde aprendeu a ser jornalista e por vários anos integrou a equipe brasileira da Rádio Vaticano. Envolvida em temáticas sociais e ambientais, participou de todo o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, tendo sido em seguida nomeada pelo Papa Francisco como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Ler mais sobre esse tema:

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Fórum Brasil: Câncer e Doenças Cardiovasculares

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5 Ago

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26 Ago

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23 Set

Campanha Respire Agosto

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29 Set

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21 Out

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17 Nov

Campanha Novembro Azul

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8 Dez

Campanha Mulher por Inteiro

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