COMO ASSIM, DR. FALCI?: Um câncer que pode ser evitado. E erradicado.

COMO ASSIM, DR. FALCI?: Um câncer que pode ser evitado. E erradicado.

Por Renato Falci Jr.*

Texto publicado em 09.10.2020


Embora saibamos que já não vivemos mais no Éden, a humanidade ainda sonha com um mundo sem doenças e com a tão esperada "cura do câncer". Apesar de distante desse objetivo, o avanço no conhecimento de algumas doenças permitiu chegarmos a algo próximo, particularmente quando se trata do câncer do colo de útero, tumor responsável por mais de 570.000 casos novos por ano e 311.000 óbitos anuais no mundo (fonte: Inca).

O principal fator associado à origem do câncer de colo de útero é bem conhecido: o vírus do papiloma humano, conhecido popularmente pela sua sigla em inglês - HPV. A infecção por esse agente é de altíssima prevalência, chegando a números tão altos como 50% da população sexualmente ativa (Braz J Infect Dis, 2006). Com essa alta prevalência, estima-se que 80% das pessoas com vida sexual tenha contato com o vírus em algum momento da vida.

Existem mais de 150 tipos de HPV, vírus que, comumente, está associado a verrugas. Desses, 40 têm a capacidade de infectar o trato gênito-urinário, sendo que 13  - os chamados de alto risco - são capazes de gerar câncer: no homem, o câncer de pênis e na mulher, o de colo de útero. Atualmente, com as práticas sexuais que envolvem órgãos fora do aparelho reprodutor, já se identificou esse vírus como causador de outros cânceres como o de canal anal, o de faringe, o de amígdala e o de laringe.

Apesar dos números assustadores, o câncer decorrente da infecção pelo HPV pode ser previnido com altíssima eficiência, uma vez que conhecemos e dominamos seu fator causal. Para isso, precisamos entender a sequência estratégica abaixo:

1 - CONTROLE DA EXPOSIÇÃO AO RISCO. O fator "exposição ao risco" é uma variável usada há séculos pelas seguradoras, desde o surgimento do primeiro conceito de seguro, no Lloyd's café, na Inglaterra. O conceito é muito simples: quanto maior a exposição, maior o risco, dado que a probabilidade final do desfecho é a soma das probabilidades de infecção de cada exposição. Traduzindo para o câncer em questão, quanto maior o número de parceiros sexuais ao longo da vida, maior a exposição ao risco de infecção pelo HPV e, portanto, maior o risco potencial de câncer.

2 - CONTROLE DA TRANSMISSÃO DO VÍRUS. É frequente a veiculação de campanhas de uso de preservativo para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Embora esse método tenha eficácia na prevenção de várias doenças quando usado corretamente, ele é pouco eficaz para impedir a transmissão do HPV, pelo fato do vírus poder estar presente em áreas não protegidas pelo preservativo.

3 - VACINA. Como comentado, dos mais de 150 subtipos de HPV, 13 são os que efetivamente estão ligados ao surgimento do câncer. Foi justamente contra esses 13 sorotipos que a vacina foi desenvolvida. Quando tomada nas doses corretas (isso inclui os reforços) e antes da primeira infecção pelo HPV, ela tem alta eficácia. No entanto, até o presente, por uma série de fatores que incluem falta de informação, falta de acesso, início cada vez mais precoce da vida sexual, a população vacinada de forma correta ainda é pequena.

Enfim particulamente, considerando o câncer de colo de útero e o de pênis (este, mais raro), podemos dizer que a medicina tem todas as ferramentas para erradicá-los. Basta que a informação chegue às pessoas e que elas tomem consciência de sua importância. Não se trata se uma ferramenta milagrosa, mas a soma dos três pilares descritos acima que, juntos, têm alta eficiência contra essa doença. Já para as infecções pelo HPV causadas pelos sorotipos de baixo risco (portanto não associados ao câncer), a vacina é menos eficaz, restando, para essa doença benigna, o controle da exposição ao risco.

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