Problemas no coração: como a COVID-19 pode agravar ainda mais doenças fatais

Problemas no coração: como a COVID-19 pode agravar ainda mais doenças fatais

A pandemia trouxe diversas complicações, entre elas, o grande aumento de mortes em casa por conta da interrupção de tratamentos e, também, estudos que demostram que o novo coronavírus causa graves danos ao coração - artigo publicado em 23.09.2020


 

 

"Temos sempre que nos cuidar. Uma vez ao ano ir ao médico e antecipar um problema para tratar dentro do tempo necessário. Não espere porque depois pode não sobrar tempo". Essa é a fala do empresário Claudio Teixeira, de 72 anos. Ele foi diagnosticado com estenose aórtica e contou sua experiência durante a live "Doenças do coração, em especial a estenose aórtica" realizada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, no dia 10 de setembro.

A estenose aórtica é uma grave doença cardiovascular que acomete de 3% a 5% da população acima de 75 anos. É causada pela calcificação da válvula aórtica limitando o fluxo de sangue e dificultando o trabalho do coração.

Claudio falou sobre sua trajetória para tratar a doença cardiovascular. Ele, que sempre teve uma ótima saúde, de repente começou a sentir falta de ar e cansaço - alguns dos sintomas da estenose aórtica que ainda conta com dor no peito, dificuldade para se exercitar e desmaios.

Ao se consultar com um cardiologista recebeu a notícia de que precisava fazer um cateterismo para a troca da válvula cardíaca prejudicada, porém, nesse meio tempo foi infectado pelo novo coronavírus "Fiz os exames pré-operatórios e deu positivo para a covid. Após meu período de quarentena e recuperado do vírus, fiz a cirurgia e hoje estou ótimo. Meu organismo é outro", complementa o empresário.

Essa é a história de Claudio, mas poderia ser a de qualquer pessoa que tenha doenças cardiovasculares. Seu relato teve um final feliz, porém, para muitas pessoas o desfecho poderia ser diferente. A pandemia do novo coronavírus exigiu cuidados extras aos cardiopatas e, também, complicações não só para quem já tinha doenças cardiovasculares quanto para quem nunca teve problemas no coração.

Cardiopatas, os pacientes de risco da COVID-19

As doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) já morreram cerca de 17,7 milhões de pessoas por essas doenças em 2015.

No Brasil, o Cardiomêtro da Sociedade Brasileira de Cardiologia já registrou, até 20/09, quase 300 mil mortes por doenças cardiovasculares. São mais de 1.100 mortes por dia, cerca de 46 por hora e 1 morte a cada 90 segundos. Números impressionantes que poderiam ser evitados, ou postergados, com cuidados preventivos e medidas terapêuticas.

Quando se fala em doenças cardiovasculares, há algumas delas que temos que levar em consideração: doença coronária, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, arritmia e doenças das válvulas. O paciente que possui qualquer uma delas precisa de cuidados e de acompanhamento médico. O tratamento adequado e as orientações do especialista são fundamentais para controlar os riscos e melhorar a expectativa de vida dos cardiopatas.

Diante disso, quando a pandemia se iniciou, constatou-se que a COVID-19 poderia acometer o organismo de diversas formas. Apesar de ter como alvo o pulmão, o vírus ataca diversos outros sistemas como o nervoso, o digestivo e o cardiovascular.

Vários estudos apontaram que os mais vulneráveis ao vírus e que, portanto, poderiam ter complicações ao contrair o coronavírus eram os indivíduos com problemas cardiovasculares, em especial, os que vivem com insuficiência cardíaca, hipertensão e diabetes.

Durante o webinar "As doenças do coração, adesão dos pacientes ao tratamento e os impactos da COVID-19", também realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida no início de setembro (03/09), o cardiologista Marcelo Sampaio apresentou os resultados de um estudo europeu feito com pessoas que tiveram COVID-19. Dos mais de 44 mil casos analisados, 10, 5% das mortes eram de pessoas que tinham doenças cardíacas contra 2,3% de pacientes sem doença cardíaca.

Por que, afinal, a COVID-19 pode ser fatal para o cardiopata? A resposta para essa pergunta está nos problemas causados por uma infecção viral. Já está estabelecido que as infecções virais podem afetar o coração causando inflamações severas no músculo cardíaco. Com o coronavírus não é diferente.

Para um paciente saudável, o seja, que nunca teve problemas cardíacos, a inflamação pode não ter um resultado adverso, mas para um cardiopata a complicação pode ser grave. Ele tem mais risco de eventos cardíacos e os resultados podem ser fatais.

Outra questão que deve ser levada em consideração é que o coronavírus tem a sua entrada na célula humana por um receptor chamado ACE-2 que está, nitidamente, associado com as doenças cardiovasculares e com os fatores de risco "O paciente cardiopata tem uma quantidade grande de ACE-2, o que facilita a entrada do vírus na célula humana", explicou o doutor Marcelo Sampaio durante o webinar.

O ACE-2, nesses pacientes, se apresenta não só no coração, mas no rim, nas artérias, no fígado, no pulmão e no trato gastrointestinal, por isso que os cardiopatas apresentam uma série de complicações quando adquirem o COVID-19 e são considerados pacientes de risco.

Miocardite, um problema da COVID-19

Estudos recentes têm mostrado que, realmente, os danos mais graves do coronavírus são no coração. A miocardite (inflamação do músculo cardíaco) associado a COVID-19 tem aparecido em pacientes que não tiveram um quadro grave da infecção e, até mesmo, entre os assintomáticos. O novo coronavírus pode afetar qualquer estrutura do coração e, apesar da miocardite não ser uma condição grave, pode levar a insuficiência cardíaca.

Um estudo realizado na Alemanha e publicado em julho na revista Jama Cardiology, mostra como o coronavírus afeta o coração. Foram analisadas cem pessoas, com média de idade de 49 anos, que tiveram, de forma leve ou assintomática, a COVID-19 e se recuperaram. Após dois meses do diagnóstico, todos curados, os cientistas submeteram os pacientes a exames de ressonância magnética e se surpreenderam com o resultado: 80% apresentavam anomalias cardíacas e 60% tinham miocardite.

Outro estudo, também publicado pela Jama Cardiology, agora feito com 39 pacientes que morreram de COVID-19, mostrou a presença do vírus no miocárdio em 60% dos casos.

Os números são alarmantes e, apesar dos estudos serem pequenos, já se sabe que pacientes jovens, que superaram o novo coronavírus desenvolveram problemas no coração. O que os cientistas estão tentando entender é como a COVID-19 causa a miocardite: será que é por um dano relacionado diretamente do vírus ao coração ou uma resposta violenta do organismo causada pelo vírus?

De acordo com o cardiologista Marcelo Rivas, coordenador de emergências médicas da Universidade do Estado do Rio (UERJ) em entrevista para o caderno "Metrópole" do jornal "O Estado de São Paulo" em 24/08 sobre as sequelas da COVID-19 no coração, o paciente da covid que chega ao consultório, muitas vezes é examinado às pressas e, com isso, o médico pode deixar passar alguma evidência. "Acho que a mensagem mais importante é que precisamos ter atenção ao sistema cardiovascular do paciente de covid, auscultar, fazer eletro e dosar enzimas. A abordagem deve ser mais completa do que se fosse apenas uma doença pulmonar", explica o médico.

Tratamento não deve ser parado durante a pandemia

Quando a pandemia começou e as recomendações à população para evitar o vírus foram divulgadas, uma delas era o distanciamento social, a quarentena, ou seja, não saia de casa. No entanto, o que não se poderia prever é que houvesse um aumento de 31,8% no número de mortes, dentro de casa, por doenças cardiovasculares.

Os dados, apresentado acima, são de um estudo feito pela Sociedade Brasileira de Cardiologia que ainda destaca: ocorreram cerca de 23.342 mortes por doenças cardíacas em domicílio em 2020 - de março a junho. Nesse mesmo período, no ano passado, foram registradas 17.707.

Nos EUA essa tendência também foi registrada. Segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), desde fevereiro, mês que a pandemia começou por lá, foram registradas 25 mil mortes a mais do que no mesmo período do ano passado.

Os números são resultados da insegurança e do medo dos pacientes cardíacos de saírem de casa e serem infectados pelo vírus.

A cardio-oncologista Marina Bond, uma das convidadas do webinar "As doenças do coração, adesão dos pacientes ao tratamento e os impactos da COVID-19", citou essa preocupação dos cardiopatas em relação a COVID-19.

A especialista falou sobre os estudos que comprovam que, grande parte dos pacientes cardiológicos interromperam os seus tratamentos por medo de sair de casa e serem infectados pelo vírus. "A pandemia gerou medo na população. Isso fez com que as pessoas ficassem mais em casa e fossem tardiamente ao hospital. Esse contexto aumentou a incidência de infartos. A COVID-19 aumenta, sim, a incidência de infartos, mas o risco da doença aumentou, também, porque os pacientes ficaram em casa e deixaram os hábitos saudáveis de lado", alerta Marina Bond.

Durante a sua apresentação, a cardio-oncologista ainda destacou que é preciso continuar com os tratamentos e, sempre, procurar um especialista caso haja algum sintoma diferente. "Se a gente não tratar de maneira adequada, outras complicações podem surgir futuramente", conclui a médica.

Uma pesquisa realizada em abril de 2020 pela Global Heart Hub, organização parceira do Instituto Lado a Lado pela Vida e primeira organização global, sem fins lucrativos, que reúne pessoas afetadas por doenças cardiovasculares, mostrou que os três maiores impactos da pandemia nos cardiopatas foram:

- Medo e ansiedade diante da vulnerabilidade de seus problemas de saúde.

- Preocupações e receios diante dos compromissos e procedimentos cancelados ou adiados.

- Aumento da ansiedade devido ao isolamento e solidão como resultado das recomendações de "ficar em casa" ou isolamento social.

De acordo com a pesquisa muitos pacientes evitaram o hospital com medo de serem infectados. Isso gerou um apelo urgente da presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia, a professora Barbra Casadei. Ela enfatizou que "as instruções para ficar em casa e deixar de ir ao hospital não se aplicam a quem tem sintomas de ataque cardíaco". Pelo contrário, esses pacientes devem ir, imediatamente, a um centro médico assim que os sintomas aparecerem.

Para o cardiologista intervencionista José Armando Mangione, o paciente que tem problemas no coração e não procura um médico tem suas chances de melhora prejudicadas "No início da pandemia houve uma diminuição muito grande de procedimentos. Caiu de 80% a 90% e o que ocorreu? os pacientes que vinham nos procurar chegavam em um momento avançado do infarto. Isso dificultava a melhora do paciente", explicou o médico durante a live do Instituto Lado a Lado pela Vida "Doenças do coração, em especial a estenose aórtica", mencionada no início do artigo.

Segundo o especialista, não precisa ter medo de ir ao hospital, pois esses centros médicos estão totalmente equipados para proporcionar segurança ao paciente. Além disso, quando não se procura atendimento especializado, o risco de mortalidade é muito grande "Se o paciente de infarto não vai ao hospital ele terá uma mortalidade muito alta, muito mais do que da COVID-19", continua o médico.

Ainda não se sabe ao certo os efeitos e o que está por vir diante da pandemia e do novo coronavírus. Médicos e especialistas estudam e a cada dia surgem novas evidências e pesquisas que tentam decifrar o vírus. No entanto, diante de tantas incertezas há um fato: o paciente com problemas cardiovasculares deve tomar cuidado e seguir as recomendações médicas. "A medicina avançou muito e está no processo contínuo de avanço. Isso leva vários benefícios ao paciente e, uma vez sendo diagnosticado, ele precisa seguir os cuidados médicos. Minha mensagem é: visitem o médico e façam um check-up periódico", finaliza o dr. Mangione.