SAÚDE PELO MUNDO: Sobre máscaras, caos e o poder de cura das plantas

SAÚDE PELO MUNDO: Sobre máscaras, caos e o poder de cura das plantas

Por Richard House
Os vegetais produzidos nas hortas de Richard House no Brasil (à esquerda) e na Inglaterra (á direita). Foto: Arquivo Pessoal 
Artigo publicado em 24.06.2020


Quão preciosa é a vida humana e o que você faria para preservar seu próprio bem-estar e o dos outros ao seu redor?

"Tudo e qualquer coisa" é provavelmente sua primeira resposta. Então como - apesar do nosso crescente conhecimento sobre um vírus que já matou mais de 600.000 pessoas e infectou 14 milhões em todo o mundo - podemos explicar as respostas coletivas ao Covid-19 caracterizadas por individualismo agressivo, risco egoístico ou comportamento totalmente suicida?

Como símbolo de nossas reações bizarras ao Covid-19, nada desencadeou mais discórdia do que a simples máscara facial. Apesar da abordagem ambivalente do presidente Jair Bolsonaro aos equipamentos de proteção individual, alguns acontecimentos chocantes com graduados desembargadores que se recusam a seguir a recomendação, percebo que muitos brasileiros parecem mais obedientes com o uso de máscaras do que muitos americanos e europeus.

O presidente Donald Trump deu o exemplo para esse "caos da máscara". Por que nos EUA tantos homens fisicamente aptos reivindicam a isenção de usar máscaras faciais em público sob a Lei dos Americanos com Deficiência? Por que outros estados do sul dos EUA (onde a nova infecção por Covid-19 está surgindo agora) acreditam que a legislação local que aplica o uso de máscaras em público é o primeiro passo para a ditadura comunista e alguns imaginaram até a Lei Sharia*? E, ainda, por que milhões de pessoas usam suas máscaras inutilmente sob o queixo como um gesto de "obediência rebelde"?  Máscaras tornaram-se um símbolo confuso de divisão política.

A Covid-19 já é perigosa o suficiente, mas os odiadores de máscaras estão piorando as coisas. O motorista de ônibus em Bayonne, França, que foi espancado até a morte por seus passageiros que se recusaram a usar máscaras. O segurança da loja em Flint, Michigan, que foi morto a tiros por dois clientes se recusando a usar máscaras. E o texano de 30 anos que morreu de repente depois de ir a uma "festa covid" para deliberadamente ser infectado? E, no Brasil, exemplos no Rio de Janeiro seguem esse padrão, como o do técnico Renato Gaúcho sem máscara na praia de Ipanema e cariocas despreocupados lotando os bares do Leblon. Além de um "graduado" desembargador em Santos/SP que, além de rasgar a multa aplicada por um guarda municipal que cumpria com seu dever, o humilhou publicamente.

Todos os dias a mídia nos traz novas histórias de um "Danse Macabre" (dança da morte) digital sendo adotada em todo o mundo, enquanto as pessoas parecem deliberadamente flertar com a infecção. Para o público medieval, apenas 100 anos após a Peste Negra (peste bubônica), a série "Dança da Morte" de 1525 do artista alemão Hans Holbein, de 39 gravuras em paineis de madeira, serviu como um poderoso lembrete de que a vida é curta. Hoje, apenas cinco meses do início da primeira onda do novo coronavírus, que tipo de despertar esses recusadores de máscaras precisam?

Todos os seres vivos devem ser nutridos e o novo coronavírus não é exceção. "Nós somos a comida", explica James Lovelock, o inventor de 101 anos da Teoria de Gaia sobre uma "terra inteligente" que é saudada pelos ecologistas. Ele acredita que a pandemia global mostra o sucesso do vírus em termos evolutivos: "Você não vai conseguir uma nova espécie florescendo a menos que tenha um suprimento de alimento e é isso que estamos nos tornando".

Bem, se nós humanos somos apenas alimento para esse vírus, eu não pretendo me oferecer a ele em um prato, expondo-me a riscos desnecessários. Minha própria identidade, minha liberdade cívica ou minha personalidade não serão enfraquecidas simplesmente por usar uma máscara para ir às compras. Em contraste, devo perguntar porque um pedacinho de pano representa tamanha ameaça para a estabilidade emocional dos "recusadores de máscaras", que parecem os perus que se oferecem como uma ceia de Natal antecipada para o vírus.

Então, que coisas positivas poderíamos fazer para melhorar a saúde e o bem-estar psicológico para nós mesmos e àqueles ao nosso redor? 

Nutrir plantas, interagir com a natureza. Cuidar de um jardim. Se você mora em um apartamento na cidade, então pegue uma jardineira ou um vaso. Já havia fortes sugestões de que a interação humana com as plantas é saudável. Sigmund Freud colecionava orquídeas. Carl Gustav Jung cultivava batatas e feijões. Donald Winnicott tinha um prolífico jardim no seu telhado em Londres.

O confinamento agora oferece uma chuva de evidências circunstanciais sobre o valor terapêutico da jardinagem. As visualizações de blogs, vídeos e canais no YouTube relacionados à horticultura explodiram. Houve um crescimento maciço na jardinagem coletiva educacional para os socialmente privados ou aqueles com necessidades especiais.

Se puder, plante sua própria comida. Vai te fazer bem. Eu faço. Na verdade, como eu relato, tenho dois "jardins do confinamento de 2020" em dois continentes, agora produzindo duas colheitas de vegetais.

Antes de deixar do Brasil no início de maio eu plantei uma horta e até "in absentia" as imagens que recebo dos meus tomates, couves-flores, abóboras, beterrabas, berinjelas e pepinos maduros no Brasil são extremamente satisfatórias. Como queridos amigos comem e desfrutam, eu também saboreio junto com eles na minha imaginação. E, aqui em Londres, eu posso cuidar do meu lote em um jardim coletivo que agora produz muitos dos mesmos vegetais que brotaram daquele lote distante no estado de São Paulo. Isso me aproxima muito das pessoas com quem me importo - e neste tempo precisamos de união em vez de divisão.

Também merecemos pelo menos algum alívio temporário do sombrio debate binário "Catch-22" (círculo vicioso) entre especialistas - economistas e epidemiologistas - que os políticos plagiam para suas próprias necessidades. Um lado nos adverte que se tivermos que entrar em confinamento novamente, então as consequências da recessão econômica serão piores do que a doença. O outro lado adverte que se não aceitarmos estilos de vida alterados, distanciamento social rígido e atividade reduzida, então o vírus acabará com uma grande parte inaceitável da população.

A melhor coisa sobre jardinagem e plantas é que o desafio de fazê-las crescer tira minha mente de tudo isso. E não precisamos usar máscaras enquanto plantamos e cavamos. 

* Lei islâmica, que faz parte da fé derivada do Alcorão e do hadith, o registro de palavras e atos do profeta Maomé.

Richard House   foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde.