SAÚDE PELO MUNDO: Um remédio que é música para nossos ouvidos

SAÚDE PELO MUNDO: Um remédio que é música para nossos ouvidos

Por Paulo Leite
Texto publicado em 10.07.2020


No início das medidas de distanciamento social e de auto-quarentena trazidas pelo novo coronavírus, um fenômeno tomou conta das redes sociais: músicos e cantores de todos os gêneros e estilos dando "show" na varanda de seus apartamentos, aparecendo em todos os tipos de "lives" e levando um pouco de alegria e esperança a uma humanidade que experimentava - de sopetão - uma nova realidade, a de que sair de casa podia ser perigoso para a saúde.

Os espetáculos musicais espontâneos foram sumindo aos poucos, mas não o consumo de música. Emissoras de rádio reportam um aumento importante de audiência. As plataformas de streaming, como Spotify, Deezer, Pandora e outras, nunca viram tanto movimento. As "lives" viraram sinônimo de "big business", com artistas famosos atraindo milhões de espectadores. A música está em toda parte.

O que explica essa atração pela música num momento como este? Será verdade que ela é benéfica para a saúde? Uma publicação da universidade norte-americana de Harvard explica que "um grupo variado de estudos sugere que a música pode melhorar a saúde humana". Segundo a mesma publicação, "o cérebro humano e o sistema nervoso central são programados para distinguir a música do ruído, e para responder a ritmo e repetição, tons e melodias."

Os cientistas da Harvard lembram ainda que "virtualmente todas as culturas, das mais primitivas às mais avançadas, fazem música (...) Afinados ou não, nós humanos cantamos ou cantarolamos, no ritmo ou não batemos palmas e nos movemos, e com os passos certos ou não, dançamos".

Há quem garanta que a música pode combater a depressão melhor do que qualquer calmante, diminuir o estresse e até combater a dor. Kim Innes, professora de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de West Virginia, nos Estados Unidos, esclarece que a música parece ativar nosso sistema neuroquímico e as estruturas cerebrais associadas com o bom humor e a positividade, promovendo mudanças benéficas em nosso estado emocional.

Os indicadores do efeito benéfico que ela pode ter sobre a saúde humana são tão fortes que os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) lançaram um programa conjunto com a Orquestra Sinfônica Nacional norte-americana para estudá-lo. Chamado "Sound Health", o programa visa "expandir o conhecimento atual e o entendimento de como ouvir, tocar ou criar música envolvem circuitos intrincados de nosso cérebro que podem ser usados para melhorar a saúde e o bem-estar; além de explorar formas de usar a música como terapia para distúrbios neurológicos".

Mesmo com todos os aparentes benefícios da música, existem alguns acordes dissonantes. Um artigo publicado há um par de anos pela revista Time sugere que certos tipos de música podem fazer mal a certas pessoas, em determinadas circunstâncias. No artigo, Joanne Loewy, diretora do Centro Louis Armstrong para Música e Medicina do hospital Mount Sinai Beth Israel, de New York, diz que "o silêncio pode ser melhor do que ouvir qualquer música ao acaso. Alguns dados mostram que determinados tipos de música podem na verdade causar estresse". A professora Loewy cita como exemplo as trilhas sonoras de filmes de terror, criadas para alimentar a ansiedade ao invés de suprimi-la.

Joanne Loewy conta que ouvir o tipo errado de música pode promover estados mentais pouco saudáveis. A pesquisadora relata um estudo levado a cabo na Finlândia em 2015, que demonstra que emoções como raiva, agressão ou tristeza, que podem ser reduzidas pela música, podem também ser exacerbadas quando se ouve determinados estilos musicais.

O que todos os estudos científicos mostram, claro, é que a música - como tudo neste mundo - tem seu lado positivo e seus aspectos negativos. Na verdade, não é preciso ser cientista para perceber que ouvir música de nosso agrado traz prazer e alegria à nossa vida. Mas quem é que não se irritou um dia com o vizinho que insiste em ouvir (pagode / funk / música clássica / rock / qualquer estilo que você odeia) no último volume?

* Paulo Leite é jornalista e vive em Washington DC desde 1992. Atualmente é consultor em novas mídias, além de trabalhar por mais de 24 anos na Organização Panamericana da Saúde, como produtor de documentários e um dos responsáveis pela presença da OPAS na Internet.Seus textos serão publicados na segunda semana de cada mês.