Webinar aborda as doenças cardiovasculares e abre campanha

Webinar aborda as doenças cardiovasculares e abre campanha

O Instituto Lado a Lado pela Vida criou a campanha Siga seu Coração em 2014 e, desde então, realiza ações e fóruns para discutir essas doenças que mais matam no Brasil e no mundo - Artigo publicado em 18.09.2020


No último dia 3/9 o Instituto Lado a Lado pela Vida realizou mais um webinar de grande sucesso. Com o tema "As doenças do coração, adesão dos pacientes ao tratamento e os impactos da COVID-19" o encontro abriu a campanha Siga seu Coração.

A campanha, criada em 2014 pelo Instituto LAL, tem como objetivo alertar à população sobre as doenças do coração, as formas de prevenção, a importância da detecção precoce e da adesão ao tratamento. Infarto, AVC e Insuficiência Cardíaca são as principais causas de mortes não só no Brasil, mas no mundo. Diante disso, é necessário discutir o assunto.

O Instituto Lado a Lado pela Vida é a primeira e única organização social no Brasil que atua simultaneamente com doenças cardiovasculares e oncológicas. Por meio de ações e fóruns de discussão reúne grandes especialistas e representantes governamentais para debaterem e, principalmente, apresentarem possíveis caminhos e possibilidades para melhorar esse cenário no Brasil.

Nesse último webinar, para falar sobre as doenças do coração, participaram: a presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, Marlene Oliveira, o cardiologista e membro do Comitê Científico do LAL Marcelo Sampaio, a cardio-oncologista Marina Bond e o infectologista Jamal Suleiman.

As doenças cardiovasculares

"As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo". É com essa frase que o cardiologista Marcelo Sampaio inicia sua apresentação no webinar. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) estima-se que 17,7 milhões de pessoas morreram por essas doenças em 2015.

No Brasil, de acordo com o Cardiômetro, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, só nesse ano até 16/9 já morreram mais de 286 mil pessoas. São mais de 1.100 mortes por dia, cerca de 46 por hora, 1 morte a cada 90 segundos.

Com o envelhecimento da população e a mudança do estilo de vida, as doenças cardiovasculares passaram a liderar as causas de mortalidade feminina, na frente dos cânceres de mama, útero e ovário "O envelhecimento e a própria mudança do estilo de vida fazem com que o sistema cardiovascular se exacerbe, principalmente porque estamos modificando, para pior, o nosso estilo de vida", explica o médico.

Quando se fala em doenças cardiovasculares, temos que levar em consideração os seguintes problemas cardíacos:  doença coronária, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e arritmia e doença das válvulas. Durante o webinar, Marcelo Sampaio explicou várias delas, mas destacou que dentre essas doenças, uma das principais é a doença coronária, devido ao infarto agudo que pode ocasionar e a alta taxa de mortalidade  "É por isso que hoje os cardiologistas e a ciência cardiológica trabalham no sentido exato de controlar os fatores de risco para que a gente não tenha óbitos de paciente em decorrência de infarto", diz Sampaio.

Mas o que é doença coronária? É quando as artérias coronárias estão repletas de placas de gordura dando um caráter rugoso a elas. Essa rugosidade poderá crescer com o passar do tempo e com os fatores de risco do indivíduo. Ao crescer obstrui parcialmente a artéria ocasionando o principal sintoma da doença coronária que é a dor no peito, a angina do peito.

A doença coronária é ocasionada por alguns fatores de risco como: pressão alta, diabetes, colesterol e fumo. O infarto, nesse caso, se dá quando há a ruptura dessas placas de gordura. Nesse momento surgem os coágulos de sangue obstruindo totalmente a artéria. O infarto pode ser fatal para o paciente.

Diante da gravidade dessas doenças, o cardiologista Marcelo Sampaio destaca uma grande preocupação em relação aos cardiopatas: a não adesão do paciente ao tratamento. Estima-se que quase 50% deles não conseguem levar adiante os cuidados necessários. "Temos dificuldade em fazer um tratamento efetivo no paciente. Todo o cardiologista nota que muitas vezes o paciente não segue o tratamento porque não teve uma adesão muito grande", diz o médico.

Tratar um paciente cardiovascular é fundamental, afinal, é preciso acompanhar o estilo de vida e as medicações. Segundo Sampaio, o cardiopata tem reclamado muito do fato de não receber as orientações necessárias do cardiologista "Os nossos pacientes reclamam muito de não ter uma orientação adequada no que se refere à dieta, à interrupção do hábito de fumar, ao consumo do álcool, o uso correto dos medicamentos e, também, sobre os exames necessários que precisam ser feitos. Então, precisamos alertar nossos colegas para que intensifiquem as conversas com o paciente, principalmente, no que se refere à adesão ao tratamento medicamentoso e à mudança do estilo de vida. Somente dessa forma podemos corrigir essas doenças e diminuir a incidência desses terríveis números que temos", alerta o cardiologista.

Covid-19 e o coração

O vírus da COVID-19 pode acometer o organismo de diversas formas. Médicos e cientistas estão estudando a doença e, a cada dia, novas descobertas são feitas. No entanto, o que se sabe é que, apesar de ter como alvo o pulmão, o vírus ataca diversos outros sistemas como o nervoso, o digestivo e o cardiovascular.

Quando a infecção acomete pacientes com doenças cardiovasculares, pode resultar em sérias complicações para o coração. Assim, quem têm pressão alta, diabetes, doenças cardíacas ou insuficiência cardíaca são considerados pacientes de risco.

No webinar, Marcelo Sampaio apresentou um estudo feito com pacientes europeus que tiveram COVID-19. Dos mais de 44 mil casos analisados, 10, 5% das mortes eram de pessoas que tinham doenças cardíacas contra 2,3% de pacientes sem doença cardíaca.

Mas, afinal, por que os cardiopatas são pacientes de risco? O coronavírus tem a sua entrada na célula humana por um receptor chamado ACE-2 que está, nitidamente, associado com as doenças cardiovasculares e com os fatores de risco "O paciente cardiopata tem uma quantidade grande desse ACE-2, o que facilita a entrada desse vírus na célula humana", explica Marcelo Sampaio.

O ACE-2, nesses pacientes, se apresenta, não só no coração, mas no rim, nas artérias, no fígado, no pulmão e no trato gastrointestinal, por isso que os cardiopatas apresentam uma série de complicações quando adquirem o COVID-19 e são considerados pacientes de risco.

A cardio-oncologista Marina Bond, uma das convidadas do webinar, destacou outra grande preocupação do COVID-19 nos cardiopatas: a alta mortalidade pela falta de tratamento.

A especialista citou estudos que comprovam que, grande parte dos pacientes cardiológicos interromperam os seus tratamentos por medo de sair de casa e serem infectados pelo vírus. "A pandemia gerou medo na população. Isso fez com que as pessoas ficassem mais em casa e fossem tardiamente ao hospital. Esse contexto aumentou a incidência de infartos. O COVID-19 aumenta, sim, a incidência de infartos, mas o risco da doença aumentou, também, porque os pacientes ficaram em casa e deixaram os hábitos saudáveis de lado", alerta Marina Bond.

Durante a sua apresentação, a cardio-oncologista ainda destacou que é preciso continuar com os tratamentos e, sempre, procurar um especialista caso haja algum sintoma diferente. "Se a gente não tratar de maneira adequada, outras complicações podem surgir futuramente", conclui a médica.

A cardio-oncologia é o termo para descrever os esforços para prevenir ou tratar indivíduos com problemas cardíacos causados ??por tratamentos contra o câncer. Embora muitos pacientes oncológicos também tenham condições de saúde relacionadas a doenças pulmonares, infecções ou doenças renais, o aumento de doenças cardíacas que os afetam fez surgir esse novo campo da medicina que reúne oncologistas, cardiologistas e pesquisadores. Essa nova especialidade cresce a cada dia, mas ainda há poucos cardio-oncologistas no país e o Instituto LAL foi o pioneiro a incluir essa atividade em seu Comitê Científico e a trazer o tema para a pauta de discussão e a divulgar a sua importância.

O infectologista Jamal Suleiman, outro convidado do webinar, destacou a importância da vacina nesse cenário de pandemia "Ao contrário do que dizem, a vacina é fundamental e tem que ser obrigatório tomar. Foi com vacina que acabamos com a Varíola, com a Polio e com o Sarampo. Acabou não significa que o vírus foi embora. O vírus não acaba nunca, mas podemos conte-la", diz o especialista.

Suleiman deu uma verdadeira aula sobre a origem do novo coronavírus e de como estamos vivendo um momento cíclico, afinal, na história já existiram pandemias como essa "Hoje estamos replicando técnicas de contenção que já foram usadas em outras pandemias", diz o infectologista.

Jamal Suleiman ainda explicou que no começo se pensou que o coronavírus era uma pneumonite viral e, portanto, os médicos pensavam que conheciam a doença, pois o sarampo tem características parecidas. "Com o início dos estudos detectou-se quem era o receptor específico dessa doença. Constatou-se, então, que o receptor era o ACE-2 que tem íntima relação com vários processos de regulação vascular", explica Suleiman indo de encontro as informações já contextualizadas pelo cardiologista Marcelo Sampaio.

Diante de tantas explicações e estudos, o infectologista levanta a questão "Hoje o que sabemos sobre o vírus?" Segundo ele, uma vez desencadeada a inflamação no paciente, este pode ter complicações que podem gerar uma doença crônica "Hoje nós temos algumas manifestações que podem estar relacionadas ao COVID-19 como, por exemplo, a cefaleia crônica em pacientes que não tinham esse problema. Isso mostra que passou a existir uma inflamação nesse sistema", explica Jamal.

Já é de conhecimento da população que um dos sintomas do COVID-19 é a perda do olfato e do paladar. Há quem se recupera rápido, porém há casos de pacientes que não se recuperaram disso. Isso identifica que o indivíduo adquiriu uma doença inflamatória secundária Pós - COVID.

Há muito o que estudar ainda sobre o vírus, porém, Jamal Suleiman aconselha o distanciamento social e os hábitos de higiene já conhecidos para se evitar o contágio "Se você puder faça o distanciamento social porque desde a gripe espanhola essa é a melhor estratégia que temos para evitar a transmissão respiratória. A higienização das mãos ainda é importante, mesmo que a transmissão por superfícies não seja um fenômeno fácil de documentar, mas a mão é o que entra em contato com as mucosas. A utilização de máscaras que antes só era indicada para quem sabia usá-las, agora deve ser para todos, mas ressaltou que é preciso instrumentalizar e alertar as pessoas para o seu uso correto. Continuem fazendo o que temos falado. Não se apressem, tenham paciência porque a quarentena é um dos piores exercícios para a nossa saúde mental", finaliza o infectologista.  

Como evitar os problemas cardiovasculares?

As doenças cardiovasculares podem ser prevenidas. Para isso é preciso mudar hábitos. Atividades físicas, alimentação saudável e cuidar dos fatores de risco cardiovasculares como: pressão arterial, diabetes e evitar o cigarro são medidas que inibem o desenvolvimento das doenças do coração, principalmente o infarto que, em muitos casos pode ser fatal.

Para Marina Bond é necessário se prevenir, fazendo um acompanhamento desde cedo "Não precisa deixar a doença chegar. É possível atuar antes fazendo os exames de rotina, indo ao médico uma vez ao ano, checando a pressão arterial. Tudo isso a gente consegue prevenir", diz a médica.

Claro que, se a pessoa for diagnosticada com doenças cardiovasculares, o tratamento deve ser medicamentoso e seguir à risca as recomendações médicas para que o problema não se agrave. "Tomar a medicação de forma correta é fundamental. Quem vai decidir qual o melhor tratamento é o médico e o paciente tem que seguir as medidas de forma correta para evitar mortes", diz Marina Bond.

A especialista em cardio-oncologia ainda destaca que pacientes oncológicos, que passaram anos fazendo tratamento contra o câncer, podem desenvolver, por exemplo, a Insuficiência Cardíaca. "Temos que alertar o paciente, desenvolver um segmento específico para que isso não venha a acontecer", explica a médica.

Para os pacientes oncológicos é necessário fazer, periodicamente, exames para evitar que esses problemas aconteçam. 

Outro assunto importante abordado por Marina foi sobre Estenose Aórtica. Essa doença, que acomete pessoas com mais de 75 anos, pode aparecer por diversos fatores, sendo a principal delas, a gerada pela calcificação degenerativa "Acomete mais idosos. A princípio não tem nenhuma medicação que vai curar e é uma doença progressiva na qual a válvula vai calcificando. Com isso o sangue não sai do coração e fica represado. A consequência é o esforço extra do órgão para liberar o líquido", explica a especialista.

O esforço do coração gera alterações no órgão que, com o tempo, passa a desenvolver sintomas como: síncope, dor no peito e falta de ar. Para a cardio-oncologista, quando o paciente começa a ter esses sintomas o tratamento é cirúrgico ou percutâneo "No SUS temos disponível a cirurgia de peito aberto, ou seja, a troca da válvula por uma mecânica ou biológica. Porém, hoje há métodos mais avançados que são as trocas percutâneas, ou cateterismo cardíaco, que estão disponíveis como particular ou via pesquisa", explica Marina.

A Estenose Aórtica ficou mais conhecida quando, no ano passado, o vocalista do Rolling Stones, Mick Jagger teve que ser levado às pressas para o hospital e teve que se submeter a uma substituição da válvula no coração. O método utilizado foi a TAVI (sigla para Tratamento Transcateter), que é o implante da válvula por meio do cateterismo feito por punção na região da virilha.

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