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E a Suécia seguiu seu próprio caminho

Poucas discussões têm causado tanta polarização nos últimos meses como a que contrapõe táticas para lidar com a pandemia da COVID-19. A maioria dos países do mundo decidiu seguir os mesmos procedimentos: distanciamento social, trabalho em casa sempre que possível, fechamento das escolas, da maioria dos escritórios e do comércio considerado não-essencial.A Suécia foi um dos pouquíssimos países a fazer um caminho contrário. Por isso, de repente, o pequeno país nórdico – normalmente lembrado apenas pelos automóveis Volvo e a loja de móveis IKEA – teve um ‘spotlight’ fortíssimo voltado para ele e sua política.

Em um momento em que o sucesso das políticas de combate ao novo coronavírus é julgado basicamente pelos números, e em que expressões como “média móvel” passaram a fazer parte do cotidiano, é importante notar que, nesse primeiro momento, a política sueca fez feio em matéria de estatísticas.

Um passeio pelas manchetes apresentadas nos meios de comunicação mostra que, por um bom tempo, a política “do contra” da Suécia foi considerada um fracasso. Em abril, os especialistas consultados pelos jornalistas, em sua maioria, duvidavam que a estratégia sueca de apostar na chamada “imunidade de rebanho” pudesse funcionar. E destacavam a alta no número de mortes, que ao final desse mês já chegava a mais de 2.500, enquanto países vizinhos, que impuseram medidas severas de isolamento social, apresentavam entre 200 e 500 mortes.

O epidemiologista Anders Tegnell, responsável pela política adotada na Suécia, foi alvo de severas críticas. No mês de maio, artigos publicados pela CNN e outros meios noticiosos alardeavam o baixo número de suecos que haviam desenvolvido os anticorpos necessários para combater a COVID-19. Segundo o noticiário, 7,3% dos suecos apresentavam os anticorpos. Na Espanha, por exemplo, onde a pandemia causou grandes estragos, esse número, na mesma época, era de 5%.

O dr. Tegnell disse que os números estavam um pouco abaixo do esperado, mas não muito. Aos críticos de sua política respondia pedindo um pouco de paciência, explicando que atingir a imunidade não era tarefa para poucas semanas. Mesmo assim, a imprensa mundial seguiu destacando o número de mortos, que na primeira semana de junho atingiu a cifra de 4.500, ou 445 mortes por milhão de habitantes, o que alguns jornalistas descreveram como “assustador”.

Ainda na metade de agosto, o consenso na imprensa parecia ser que a Suécia teria errado feio ao enfatizar a responsabilidade individual em lugar de medidas restritivas ditadas pelo governo. Anders Tegnell, em entrevista ao jornal sueco Dagens Nyheter, reconheceu que o governo poderia ter agido melhor em alguns aspectos, como no cuidado com as casas de repouso para idosos, onde quase metade das mortes por COVID-19 aconteceu. Mas completou: “No geral, eu ainda estou convencido de que a Suécia trilhou o caminho correto”.

A chegada do mês de setembro parece ter validado as teses de Anders Tegnell. Pouco a pouco, surgem reportagens com títulos como “A Suécia está perto de vencer o novo coronavírus” e “Suécia tem a menor taxa de morte por COVID-19 do mundo”. O país, onde as escolas nunca suspenderam as aulas presenciais e pouquíssima gente usa máscaras – mas onde a maioria das pessoas seguiu por conta própria medidas de distanciamento social – apresenta agora números de fazer inveja.

A Suécia tem hoje uma das menores taxas de infecção do mundo e é considerado o país mais seguro da Europa. As mortes praticamente desapareceram. “A nossa política pode ter demorado um pouco mais para apresentar resultados, mas sabíamos que os resultados apareceriam eventualmente”, declarou Tegnell ao jornal italiano Corriere della Sera. E finalizou dizendo: “e tudo indica que o resultado vai ser também mais estável e sustentável que a alternativa”.

Há muita discussão ainda sobre se a política sueca poderia ter sido implementada com sucesso em países com características sociais diferentes das do país nórdico. A resposta a essa questão, como a quase todas as dúvidas trazidas pela pandemia, provavelmente ainda vai demorar um pouco mais.

* Paulo Leite é jornalista e vive em Washington DC desde 1992. Atualmente é consultor em novas mídias, além de trabalhar por mais de 24 anos na Organização Panamericana da Saúde, como produtor de documentários e um dos responsáveis pela presença da OPAS na Internet.Seus textos serão publicados na segunda semana de cada mês.

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