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II Fórum Brasil encerrou com discussões sobre os desafios e o enfrentamento das doenças cardiovasculares no Brasil pós-pandemia

Na quinta-feira, 29 de julho de 2021, o “II Fórum Brasil: Câncer e Doenças Cardiovasculares, Desafios de Todos”, evento virtual e gratuito promovido pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), discutiu os desafios do enfrentamento das doenças cardiovasculares no Brasil que acometem 14 milhões de brasileiros. O segundo e último dia do evento abordou a preocupação com um possível colapso no sistema de saúde que pode acontecer pós-pandemia de Covid-19, devido à falta de acompanhamento, prevenção e tratamento, ou mesmo, por medo da contaminação, durante este período.

A pandemia agravou uma situação que já era preocupante e alertou para a urgência de atuar na definição das políticas públicas de enfrentamento das doenças crônicas e cardiovasculares. Além, de reforçar o engajamento da população, para que assumam a responsabilidade com a prevenção e a busca do diagnóstico precoce.

Um dos destaques, foi a palestra internacional de Anselm Hennis, diretor do Departamento de DCNTs (doenças crônicas não transmissíveis) e Saúde Mental da Organização Panamericana da Saúde (OPAS), que trabalha na sede da entidade, em Washington (DC).  Hennis abordou os cuidados continuados para pessoas que vivem com doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) durante e após a pandemia de Covid-19. “Para a prevenção das DCNTs é fundamental implementar campanhas de conscientização na educação pública que visem aumentar a prática de atividades físicas, aprimorar a terapia de medicamentos, diminuição da ingestão de álcool, cigarro e sal”, afirma Hennis. O médico, que ocupa posição executiva de direção na Organização Panamericana da Saúde, pontuou também que, nas Américas, 250 milhões de pessoas vivem com DCNTs e possuem maior risco de desenvolver a Covid-19. Além disso, as DCNTs compõem 81% das causas de morte no continente, sendo 34% em pessoas de 30 a 70 anos.

No painel sobre o enfrentamento e controle das doenças cardiovasculares no Brasil foi discutido o atual cenário do país considerando a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Maria Lucia Vieira, membro da Diretoria de Pesquisas do IBGE, apresentou os dados levantados pelo instituto que apontam para um crescimento da prevalência de doenças crônicas no Brasil. De acordo com a pesquisa, 52% da população acima dos 18 anos convive com alguma doença crônica. Outra informação destacada foi o índice de pessoas com hipertensão, que é de 23,9%.

Além do panorama das doenças crônicas como diabetes, depressão e hipertensão, os convidados abordaram o estilo de vida e a Covid-19 como fatores que interferem diretamente na saúde do coração. O investimento em Atenção Primária à Saúde (APS) também ganhou destaque no debate. Para o cardiologista Marcelo Sampaio, membro do Comitê Científico do Instituto LAL e coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo – Mirante, há um desinteresse do cuidado com a saúde não só por parte da população. “Os números apontam sempre para o aumento dos índices de prevalência das doenças crônicas, obesidade e de comportamentos nocivos à saúde.  O que me leva a questionar o interesse do governo, entidades, mídia e da sociedade civil em mudar o panorama brasileiro. A transformação do cenário só será possível por meio de um pacto entre os atores sociais envolvidos”, ressaltou. Ele também apontou a urgência de investimento no programa Estratégia Saúde da Família (ESF). “É fundamental investir em atenção primária e prevenção para assim conseguirmos mudar a realidade. Porque através dela é que conseguiremos evitar a incidência de doenças e melhorar a qualidade de vida do brasileiro”, disse.

A importância da tecnologia foi posta como crucial no processo de avanço do Sistema Único de Saúde (SUS). Para Manoel Canesin, presidente da Rede Brasileira de Insuficiência Cardíaca (Rebric), é por meio das inovações que a evolução será possível. “A tecnologia tem que estar entranhada em todos os processos, principalmente na atenção primária. A telemedicina, por exemplo, é um ganho de agilidade na prevenção e no diagnóstico. Eu estimo que 80% dos casos de assistência primária podem ser solucionados por uma consulta digital”, apontou. O médico abordou também a necessidade de mudar a estrutura da saúde no Brasil. “É nítida a preocupação e o investimento com a atenção terciária, voltada para o tratamento da doença. A lógica deveria ser inversa. O olhar deve estar voltado para a atenção básica para que o paciente não necessite de tratamento e assim diminuir os custos”, explicou.

Em consonância com Canesin, Sampaio chamou a atenção para a precariedade da informatização do SUS. De acordo com o médico, ela é a chave para o aperfeiçoamento de políticas efetivas. “Carecemos de prontuário eletrônico e banco de dados. Não é possível realizar uma campanha eficaz e sanar os problemas se não há dados suficientes sobre a população. A criação de uma rede onde esses dados estejam dispostos facilitaria o diagnóstico e o encaminhamento dos pacientes”, afirmou.

Enquanto a digitalização é vista como propulsora da melhoria do sistema de atendimento, a falta de acesso é um problema. Para Jaqueline Misael, da Coordenação-Geral de Prevenção de Doenças Crônicas e Controle do Tabagismo (CGCTAB), a democratização do acesso ao digital ainda está aquém do que deveria no país. “Há lugares no Brasil em que não há acesso à internet e à tecnologia. Estamos falando de 29% da população que não tem acesso nenhum.  A modernização é importante, mas é preciso enxergar os obstáculos que a desigualdade impõe. Esse fator não pode estar fora do debate”, colocou.

O impacto da Covid-19 foi colocado como grave para o tratamento das doenças cardiovasculares, já que muitos pacientes deixaram de ir a consultas devido ao medo da contaminação. Marcelo Sampaio destacou que as complicações do pós-pandemia serão trágicas. “Além dos fatores já existentes como a obesidade, tabagismo e excesso de uso de álcool, teremos que lidar com as sequelas da Covid-19 e com o avanço de doenças que não foram previamente diagnosticadas. Enfrentaremos um grande desafio daqui em diante”, afirmou. Canesin concordou, mas apresentou um cenário mais otimista. “A Covid está sendo um limão azedo, mas estamos aprendendo muito com tudo o que está acontecendo. O SUS se mostrou essencial na assistência à população. Acredito que está havendo uma mudança nos processos, uma vez que o sistema teve que dar conta rapidamente de um problema a nível nacional e de difícil contenção”, finaliza.

No painel “O futuro das doenças cardiovasculares no Brasil”, foi amplamente debatido como a pandemia agravou essa situação que já era preocupante e que a necessidade de políticas públicas para mudar esse cenário. Gonzalo Vecina, médico sanitarista, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), destaca que é necessário entender a complexidade dessas doenças e prestar atenção aos fatores de risco. “Os principais pilares para os gestores públicos se concentrarem para melhorar esse cenário são: a disseminação da informação sobre essa pauta pelo governo e pela sociedade (organizações não governamentais e mídia); facilitar o acesso à rede de tratamento; rever programas que têm como objetivo a prevenção em relação aos fatores de risco (porque os resultados não são medidos, portanto, não efetivos); e pesquisa”.

Segundo, José Eduardo Fogolin Passos, ex-diretor nacional de Atenção Especializada e Temática do Ministério da Saúde (MS), os maiores desafios para gestores públicos no Brasil, na reta final da pandemia, estão relacionados à falta de atendimento durante esse período, o que prejudicou a identificação precoce de doenças. “As sequelas que ficarão pós-Covid também é um grande desafio, sem podermos prever o que acontecerá nessa questão”.

No painel “Os recuperados da Covid-19, as sequelas da doença, em especial no coração e os impactos no Sistema de Saúde” foi abordado que a maior preocupação é com um possível colapso no SUS, que pode ser gerado pós-pandemia. Outro fator que deve ser levado em consideração é o aumento das doenças cardiovasculares em mulheres jovens, visto que adotaram um estilo de vida diferente nos últimos anos, bebendo e fumando mais, praticando menos exercícios.  De acordo com Marina Bond, cardiologista, também membro do Comitê Científico do LAL, especialista em cardio-oncologia no A.C. Camargo Cancer Center e no Centro Paulista de Oncologia, não apenas mulheres, mas todas as pessoas precisam pensar no controle dos fatores de risco.

Os convidados enfatizaram a necessidade do autocuidado e da incorporação de boas práticas como alimentação saudável, controle do peso, prática de exercício físico, não fumar e não consumir álcool em excesso. Tais práticas corroboram para o achatamento dos índices de doenças cardiovasculares no país.

Workshop internacional de valvopatias

O workshop internacional de valvopatias, doenças que acometem as válvulas do coração, discutiu prioritariamente a dificuldade de acesso dos pacientes a um tratamento adequado, assim como ao diagnóstico precoce da doença. Foi traçado um panorama comparativo da realidade do Brasil, do México e do Reino Unido, onde ficou clara a prevalência da valvopatia causada pela febre reumática em jovens com vida ativa em países em desenvolvimento, como Brasil e México e a sua baixa incidência em países desenvolvidos. Na Europa, por exemplo, a maior incidência é da estenose aórtica, caracterizada pelo desgaste da válvula, na população acima de 60 anos.

O convidado Fábio Gaiotto, cardiologista e coordenador do Programa de Insuficiência Cardíaca e Transplante Cardíaco do Instituto do Coração (InCor), destaca a importância do diagnóstico precoce no controle da enfermidade. “A identificação prévia da valvopatia reumática, principalmente, traz ganhos enormes no que diz respeito à qualidade de vida do paciente e redução de custos. Um paciente jovem que já apresenta um quadro avançado será submetido a diversas cirurgias ao longo da vida. O impacto desses procedimentos afeta diretamente o seu estilo de vida. Precisamos reduzir os números de cirurgias e aumentar o investimento em atenção primária”, pontuou o cirurgião.

A mesa contou também com a participação de Ariane Macedo (Santa Casa de São Paulo), José Armando Mangione (presidente da SOLACI, Sociedade Latino-americana de cardiologia intervencionista do Hospital Beneficência Portuguesa) e dois representantes de organizações de pacientes internacionais: Wil Woan, CEO da Heart Valve Voice, do Reino Unido; e Carlos Castro, presidente da Pacientes de Corazón, do México.

A presidente do instituto Marlene Oliveira também aproveitou a oportunidade para anunciar o lançamento do “Documento Guia sobre Valvopatias no Brasil”.  Com o objetivo de apresentar o cenário da doença no país, o LAL produzirá um documento informativo apresentando dados e abordando a jornada do paciente: do diagnóstico até o tratamento. A previsão é que ele seja divulgado no primeiro trimestre de 2022.

Participação Social na Saúde, atuação constante do LAL

Uma conquista comemorada ao final do workshop foi a recente incorporação do Implante Percutâneo Transcateter de Válvula Aórtica (TAVI) pelo SUS. O procedimento não invasivo consiste na substituição da válvula aórtica por meio de um cateter inserido na virilha que chega até o coração. Em junho deste ano a Comisão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde-SUS (CONITEC) aprovou a realização da técnica em pacientes que não podem realizar a cirurgia de peito aberto para a troca das válvulas. O procedimento também foi aprovado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) neste ano, para quem tem plano de saúde. O Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) contribuiu diretamente para essa conquista dos pacientes e, no relatório divulgado pela CONITEC, o instituto foi citado três vezes e seus argumentos, fornecidos para a consulta pública, incluídos no documento de incorporação do TAVI.

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