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IV Fórum de Câncer de Pulmão reforça a importância do diagnóstico precoce e traz novidades em tratamento

Bia Rodrigues, Redação LAL – O câncer de pulmão mata 1,76 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. E apesar do tabagismo ainda ser a maior causa da doença, os casos entre não fumantes crescem ano após ano. Cerca de 20% dos novos casos diagnosticados são em pessoas que nunca fumaram. Para aumentar a consciência sobre os fatores de risco, a importância do diagnóstico precoce e do rastreamento, o Instituto Lado a Lado pela Vida realizou no dia 25 de junho o IV Fórum A Nova Cara do Câncer – Pulmão, no auditório do Interlegis, em Brasília.

Um dos pontos altos do Fórum foi a ativa participação da plateia, formada por profissionais de saúde, alunos de cursos correlatos e pacientes que, em diversos momentos, trouxeram depoimentos fortes e de impacto, contribuindo em muito para elevar o nível das discussões e fornecer informações relevantes para os legisladores que, a partir desse evento, certamente darão mais atenção ao tema em seus projetos e estudos.

A história da zagueira da seleção francesa de futebol feminino, Wendie Renard, ilustra o aumento de casos em pessoas não fumantes. Aos oito anos de idade, a jogadora perdeu o pai para um câncer de pulmão. “Eu nem sabia o que era isso. Ele nunca fumou ou bebeu, e de repente o médico disse que ele poderia não aguentar muito tempo”, afirmou, segundo reportagem publicada no UOL Esportes . Histórico familiar da doença, poluição do ar, exposição ao amianto e ao gás radônio e tabagismo passivo também são fatores de risco. E é por isso que todos devemos estar em alerta.

Os dados internacionais e nacionais apontam que a grande maioria dos pacientes já chega aos consultórios em um estágio avançado da doença. Isso diminui a efetividade dos tratamentos disponíveis e a taxa de sobrevida. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Brasil, apenas 16% dos casos são diagnosticados em estágio inicial (câncer localizado) – o que faz com que uma cirurgia seja possível -, para a qual a taxa de sobrevida de cinco anos é de 56%. “Quase 20% dos pacientes que chegam aos consultórios nunca colocaram um cigarro na boca. O IV Fórum é um espaço para discutirmos um olhar mais amplo sobre a doença e os fatores de risco. Tivemos grandes avanços no tratamento de pacientes com o uso da tecnologia e os avanços da medicina, mas ainda precisamos discutir uma linha de cuidado para essas pessoas e o rastreamento da doença. Há um abismo na questão do acesso ao tratamento na saúde pública e na saúde suplementar e a medicina personalizada, ou de precisão, precisa ser uma realidade para todos”, disse a presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, Marlene Oliveira, no discurso de abertura.

Para o senador Nelson Trad Filho, que participou da palestra de abertura “Câncer de pulmão: nós precisamos falar sobre isso”, os números da doença no Brasil demonstram a importância de discutir o tema. “A melhor ferramenta que temos para prevenir doenças é o nosso conhecimento. Estima-se quase 19 mil novos casos de câncer de pulmão entre homens e quase 13 mil nas mulheres no biênio 18/19 no Brasil. Ele é um dos mais agressivos e a sobrevida é baixa. O Brasil tem um prejuízo de 57 bilhões de reais com o tabagismo, uma das principais causas da doença, sendo que 40 bilhões são com despesas médicas. Com certeza, a prevenção é muito mais barata e ela passa pela informação”, afirmou o senador.

Já o deputado federal Hiran Gonçalves lembrou da importância da aprovação, no dia 18 de junho, pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados da PL 7082/2017, que regulamenta as pesquisas clínicas com seres humanos, para o tratamento de câncer – e de outras doenças – no país. “Vencemos uma etapa muito importante em relação à pesquisa clínica no país. Não tínhamos um marco legal para facilitar o acesso das pessoas após estudos e prazos para protocolos tramitarem dentro da Anvisa e do Ministério da Saúde. Além disso, prevê que pesquisas internacionais sejam realizadas no Brasil ao mesmo tempo, facilitando o acesso de pacientes a novos tratamentos”, destacou o deputado, acrescentando o importante apoio do Instituto Lado a Lado para influenciar o voto de parlamentares. O deputado reforçou, também, que “o trabalho de conscientização em relação ao câncer de pulmão, como o feito pelo Instituto Lado a Lado, é muito importante para que possamos atuar na prevenção da doença. Precisamos levar um ciclo completo do tratamento e do diagnóstico precoce para todo o país”.

O oncologista clínico do Hospital Sírio Libanês, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado e um dos responsáveis pelo programa do Fórum Marcelo R.S. Cruz, apresentou um panorama da doença na palestra “É possível equilibrar a balança?”, que tratou do diagnóstico precoce e do tratamento adequado para casos avançados da doença. Segundo ele, apenas nos EUA, o câncer de pulmão mata mais do que os cânceres de próstata, mama e intestino juntos. O oncologista também mostrou um viés econômico da doença e do tabagismo para o Brasil ao trazer para o público reportagens da imprensa nacional e internacional sobre o tema. “A arrecadação de impostos com a venda de cigarros no país é de R$ 12,9 bilhões, o que gera saldo negativo de R$ 44 bilhões por ano, segundo o estudo Tabagismo no Brasil: Morte, Doença e Política de Preços e Esforços. Então, falaram sobre baixar a taxação do cigarro, reduzir o consumo de cigarro contrabandeado e aumentar a arrecadação de impostos. Mas a questão é reduzir o consumo. O controle do tabagismo segue sendo o mais importante na prevenção do câncer de pulmão. Aqui destaco que as campanhas precisam ser revistas regionalmente porque as mensagens não chegam às populações rurais e de baixa renda”, disse o especialista.

Ainda segundo o médico, o rastreamento é um caminho a ser seguido no Brasil para diagnosticar a doença em estágio inicial e ele vem crescendo no mundo todo. “Os programas de rastreamento tem crescido no mundo desde 2013/2014, apesar de ser incipiente no Brasil ainda. Os dados de 2019 dos EUA mostram uma queda na mortalidade por câncer de pulmão, primeiro com os programas antitabagismo e, agora, com o diagnóstico precoce. Os programas de detecção precoce precisam ser adotados no Brasil e não deve ser para todo mundo, mas focar em uma população de risco. Nos programas de rastreamento, 70% dos casos de câncer de pulmão são detectados em estágio inicial. Muitos se perguntam se compensa fazer tomografia de baixa dosagem anualmente na população de risco. Um recente estudo canadense mostra que o rastreamento é custo-efetivo”, afirmou.

Em relação ao tratamento da doença, o Brasil ainda precisa focar seus esforços para diminuir o tempo entre a detecção da doença e o início do tratamento, principalmente no sistema público. A jornada do paciente (tempo entre o diagnóstico e o tratamento) no sistema privado é de 2,5 meses. Já no público, são 12 meses. O diagnóstico precoce de um câncer, além de ser importante para o sucesso do tratamento, também impacta nos custos do tratamento.

Segundo estudo do economista especializado em saúde do Banco Mundial André Cezar Medici, entre 1999 e 2015, o valor gasto aumentou de R$ 470 milhões para R$ 3,3 bilhões em valores nominais para todos os cânceres e cerca de dois terços desse valor referem-se à quimioterapia. “As novas descobertas de medicamentos e tratamentos são importantes e aumentam as chances de cura. Ouvimos o argumento de que as inovações não podem ser financiadas por serem muito caras. Mas boa parte desse aumento dos gastos se justifica pelos custos do tratamento de cânceres diagnosticados em estágio avançado. Diagnosticar tardiamente custa muito caro para qualquer sistema de saúde. Ao adotar programas de prevenção e diagnóstico precoce, o número de pessoas que precisam de tratamentos, como terapia-alvo e imunoterapia, diminui e os custos com essas inovações poderão ser financiados para quem precisa”, concluiu o dr. Marcelo Cruz.

O IV Fórum A nova Cara do Câncer – Pulmão teve ainda dois painéis. O primeiro, com mediação do dr. Marcelo Cruz , debateu o rastreamento da doença no Brasil e teve a participação da médica oncologista Sabina Aleixo, do pneumologista Gustavo Faibischew Prado e do clínico Flavio Noronha. A segunda mesa , realizada no período da tarde, discutiu os tratamentos adequados e os avanços tecnológicos. Participaram dessa mesa os deputados federais Carmen Zanotto, Silvia Cristina, Dr. Frederico, o oncologista clínico Igor Morbeck e a pesquisadora científica Mariana Matera Veras. A mediação foi do oncologista e membro do Comitê Científico do LAL, Fernando Santini.

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