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O novo normal. Igual ao antigo?

Não sei se você pensa como eu, mas tenho a impressão de que minha cabeça vai explodir na próxima vez que ouvir falar em “novo normal”. Em matéria de clichês, esse veio rápido e se esgotou ainda mais rapidamente. Mas como todo clichê começa com uma verdade, é inegável que vamos ter que conviver com novos hábitos e mudar muitos atos de nosso dia-a-dia sobre os quais nunca pensamos muito antes.

Há quem garanta que o tal “novo” normal vai, com o tempo, acabar sendo praticamente idêntico ao normal de sempre. Mas, a curto e médio prazos, seria bom que pudéssemos agir um pouco diferente, para proteger a nós mesmos e às pessoas que nos rodeiam. Para isso, precisamos examinar algumas lições que aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) nesta pandemia da COVID-19.

A primeira lição que fica é que a ciência, e especialmente os cientistas, não são infalíveis. Mas estão certos na maioria das vezes. Nos primeiros dias da pandemia, os especialistas nos passaram várias informações que acabaram sendo desmentidas ou bastante modificadas. Ciência é observação de fatos, análise de dados e formulação de hipóteses. Ciência não é dogma, nem consenso. A ciência muda, evolui e, às vezes, se contradiz.

Quando o novo coronavírus e a COVID-19, doença causada por ele, apareceram, a quantidade de dados disponível era pequena. Muitas hipóteses foram formuladas com mais base na experiência de lidar com outros tipos de coronavírus e outros tipos de doenças respiratórias do que no novo vírus. Com o passar do tempo, a quantidade de dados disponível foi aumentando, os mecanismos de infecção foram melhor entendidos e os possíveis caminhos para a transmissão foram se tornando mais claros.

Há quem enxergue nisso conspirações e planos sinistros. É mais fácil, porém, perceber que as teorias são formuladas por seres humanos, que falham apesar das melhores intenções. Quando novos dados tornam-se disponíveis, temos a tendência de olhar para os fatos do passado com outros olhos. Nos países de língua inglesa há um dito popular: “hindsight is 20/20”. Algo como “quando olhamos para trás, nossa visão é perfeita”. A verdade é que os países que seguiram as primeiras recomendações dos especialistas e foram mudando suas políticas à luz de novas descobertas, foram os que melhor se saíram nesta pandemia.

Outra lição que a pandemia nos ensinou: as redes sociais são excelentes para manter o contato com familiares e amigos, divertidas com seus memes e “lives”, mas estão longe de ser uma fonte confiável de informação. A quantidade de informações duvidosas, mal-intencionadas ou simplesmente incorretas com as quais os usuários das redes sociais foram bombardeados nas últimas semanas é quase inacreditável. Melhor continuar com as fontes tradicionais de informação e confiar que fatos sejam checados antes de sua divulgação. Qualquer que seja a fonte, uma pitada de desconfiança e um pé ligeiramente atrás são recomendados.

Uma terceira lição que nós homens deveríamos ter aprendido com o novo coronavírus é cuidar mais de nossa saúde. Em geral, não gostamos de ir ao médico nem de seguir conselhos e  recomendações de especialistas e das pessoas que nos querem bem. Comer melhor, beber com moderação, não fumar e praticar algum tipo de exercício. Tudo entrava por um ouvido e saia por outro. Se antes essa política já não funcionava assim tão bem, hoje em dia é praticamente suicida. As pessoas mais afetadas pela COVID-19 foram – e continuam sendo – aquelas que apresentam problemas de saúde, muitas vezes desconhecidos até a hora em que o indivíduo chega a um hospital ou unidade de saúde.

Uma última lição, para não esticar demais o assunto: confiar na capacidade de mudança do ser humano leva, mais das vezes, à decepção. As previsões de um mundo mais solidário estão se mostrando vazias muito antes do que se pensava. Muita gente na rua, sem motivo nem proteção. Brigas nos condomínios por razões às vezes fúteis. Falta de consideração com o próximo em supermercados. A lista é longa. E triste

* Paulo Leite é jornalista e vive em Washington DC desde 1992. Atualmente é consultor em novas mídias, além de trabalhar por mais de 24 anos na Organização Panamericana da Saúde, como produtor de documentários e um dos responsáveis pela presença da OPAS na Internet.Seus textos serão publicados na segunda semana de cada mês.

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