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O Poder da Reflexão

Há 65 anos, o ‘não’ de uma senhora simples, sóbria e sofrida impulsionou uma das ondas de protesto mais quietas e importantes na defesa dos direitos civis do século XX.

O firme ‘não’ da costureira negra Rose Parks, ao se recusar a dar seu lugar no ônibus a um homem branco, fez de nós, hoje, pessoas melhores. Rose, no estado sulista de Alabama, nos EUA, foi intimada pelo motorista a se levantar e liberar seu assento, mas ela, depois de uma jornada de trabalho, continuou sentada. O seu processo, a sucessiva prisão, a ajuda do pastor metodista Martin Luther King, passeatas e boicotes contra os transportes públicos deram origem finalmente a uma autêntica rebelião cultural.

Quando o episódio do ônibus ocorreu, em 1º de dezembro de 1955, a tolerância de Rosa Parks ante a discriminação de que os negros eram alvo estava esgotada. Anos mais tarde, ela mesma escreveria: “Sempre dizem que eu não cedi o lugar porque estava cansada, mas isso não é verdade. Eu não estava fisicamente esgotada, não mais do que normalmente estaria no final de um dia de trabalho. Não, a única coisa de que eu estava cansada era de sofrer”.

Rosa foi presa por “conduta imprópria”, o protesto envolveu milhares de pessoas e os eventos foram ganhando visibilidade em todo o país. O nervosismo deflagrado em meio à comunidade afro-americana estava prestes a fluir para a violência, e simultaneamente, aumentava também o risco de represálias brancas. Foi então decidido que a reação àquela injustiça que tanto doía seria clara, mas pacífica.

Em 2020, o racismo não só ainda persiste nos EUA e no Brasil, mas ainda deve ser combatido no plano cultural. Construir uma sólida e saudável consciência civil faz parte dos deveres de todo cidadão. Respeitar o próximo é o be-a-bá da boa educação. Sim, somos muito diferentes entre nós. Pensamos todos de modo diferente, crescemos cada um de um jeito. Mas existem valores que mesmo na maior diversidade, são humanos: a fraternidade é um deles. Desde criança nossos pais nos ensinaram a tratar bem os irmãos, principalmente os menorzinhos; a não bater neles, a não xingar e nem ser prepotente. 

Apesar do preconceito com o qual sempre conviveu por causa de sua pele negra, Rosa Parks deve ter crescido com isso na cabeça. Sua exaustão não se transformou em barulho ou em raiva. Ela não bradou ódio entre a comunidade. Ela tinha no coração uma “força pacata”, como cita sua autobiografia. Quando morreu, em 2005, o mundo que a conhecia lhe dedicou inúmeras homenagens definindo-a “tímida e discreta”, “extremamente humilde”, não obstante fosse dona de uma “coragem de leão”.

Em nossa vida de hoje, a pacatez é quase sinônimo de covardia. Quem não grita e não ofende, não aparece. “Não odeio, portanto, não existo”. Ter uma opinião e expressá-la de modo garboso, guardá-la para si, ou simplesmente refletir antes de formá-la, é sinal de passividade. Existe cabimento nisso? Por que classificar as diversidades humanas amando-as ou desprezando-as? É mesmo preciso atacar alguém quando discordamos de sua posição política? Qual o sentido de politizar todas as nossas ideias ou iniciativas? Mas principalmente, o que ganhamos transpirando raiva por todos os poros? Sinto-me perdida quando leio certos comentários públicos em sites de notícias.

Sem dúvida, a Internet e as redes sociais são um grande canal de informação e conscientização, mas representam ao mesmo tempo uma grande arma, uma metralhadora que quando apontada para um grupo ou uma pessoa, ganha um altíssimo poder de destruição. Hoje em dia, é bastante comum odiar e angariar adeptos. Nas redes sociais, o ódio agrega mais do que o amor.  Extravasar, sempre, parece ter virado um lema de vida.

Rosa Parks morreu em 2005. Ela ganhou seu lugar na História, ao lado de centenas de outros homens e mulheres corajosos que ajudaram a acabar com a segregação racial por lei. O impacto daquele movimento pacífico em outras partes do mundo foi notável. A partir do “não me levanto”, sempre percorrendo o caminho da não-violência, o espírito ativista desencadeado em 1955 pode ainda hoje nos lembrar do poder da boa educação. Nascemos irmãos todos, e o seremos até o fim de nossos dias!

*Cristiane Murray é formada em administração de Empresas pela PUC-RJ. Vive na Itália, onde aprendeu a ser jornalista e por vários anos integrou a equipe brasileira da Rádio Vaticano. Envolvida em temáticas sociais e ambientais, participou de todo o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, tendo sido em seguida nomeada pelo Papa Francisco como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé.

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