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Os prisioneiros idosos do “Castelo Coronavírus”

Recentemente, fui visitar meu tio de 96 anos, que mora em um lar para idosos em uma cathedral city* nos arredores de Londres. Isso me impressionou muito – e não porque ele se recuperou totalmente de um ataque especialmente ruim de Covid-19.

 O impacto dessa pandemia em pessoas mais velhas tem sido esmagador. Aqui no Reino Unido, os riscos para os idosos são enormes. O governo estima que 20% dos 420.000 residentes em lares para idosos do país podem ter sofrido infecções de Covid, e mais de 16 mil desses indivíduos já morreram.

Estima-se que existam 20 milhões de pessoas no Brasil com mais de 80 anos, com cerca de 84 mil vivendo em instituições semelhantes a do meu tio e muitas mais sendo cuidadas em casa. Todos os relatórios mostram que o Brasil tem um problema enorme, mas em grande parte despercebido, com idosos que sofrem de Coronavírus.

 Durante uma pandemia global que mudou drasticamente a vida de bilhões de cidadãos, a preocupação com os direitos das pessoas idosas ou frágeis pode parecer um luxo desnecessário. Se é para os idosos sobreviverem, então eles devem ficar trancados e afastados do mundo. No entanto, se a liberdade, o respeito, a dignidade e a escolha são nossos maiores objetivos democráticos, então por que devemos privar os idosos desses direitos?

A cultura popular nos deixa fascinados com as histórias de “viva intensamente e morra jovem” como as estrelas do “clube 27”, entre elas Amy Winehouse, Jimi Hendrix, Curt Cobain ou Jim Morrison, que chocaram o mundo ao morrer prematuramente com essa idade. Mas, e as histórias de “viver para ficar velho e depois morrer bem”? As pessoas de idade não merecem um “Clube 87” de idosos que sabem dos riscos e fazem suas próprias escolhas?

Ficamos acostumados a ver imagens de TV de UTIs com pacientes de Covid-19 entubados, deitados de bruços conectados a respiradores e cercados por equipes de médicos. Ou do pequeno número de sobreviventes de cabelos grisalhos em suas cadeiras de rodas, sendo aplaudidos por uma “guarda de honra” de enfermeiras ao deixarem os hospitais para voltar para casa após seu sofrimento.

Que tipo de vida os “sobreviventes seniores” podem esperar? Para aqueles que sofrem de demência ou Alzheimer, a vida após a Covid-19 pode ser indiscutivelmente pior do que a doença. O lar de idosos do meu tio no Reino Unido é bom. E tendo sobrevivido, ele pode realmente ter imunidade à nova infecção de Covid – no entanto, ele ainda é um prisioneiro em um fortificado “Castelo Coronavirus” do qual não há escapatória. Seu destino é compartilhado por muitos idosos no Brasil, EUA, Europa e Japão.

Já no fim de sua vida e sofrendo de demência avançada, meu tio enfrenta um mundo assustador e estranho, sem os direitos humanos que ele desfrutou. Em vez de viagens com cuidadores ou dias ensolarados no jardim, ele está trancado dentro do lar. Em vez de atividades sociais com outros residentes, ele está sozinho todos os dias assistindo TV em seu quarto. A terapia ocupacional, a música, os jogos, os artistas, todos acabaram. Em nome da biossegurança.

As visitas familiares foram estritamente proibidas por quatro longos meses. Minha visita monitorada de 30 minutos foi repetidamente interrompida por enfermeiras me alertando sobre o distanciamento social, porque meu tio insistia em impulsionar sua cadeira de rodas em torno da mesa de 2 metros de comprimento que nos separava, para chegar mais perto. Não podíamos olhar para um álbum de família juntos.  Claro que o fato de eu estar escondido atrás da minha máscara facial, somado à realidade de ele não ter visto ninguém além de suas enfermeiras ou cuidadores por meses, colaborava para que ele não tivesse absolutamente ideia de quem eu era.

A vida não é muito melhor para minha adorável vizinha de 85 anos aqui em Londres, que ainda vive em sua própria casa, mas tem cuidadores profissionais por causa de sua demência.

Como o governo ordenou “blindagem” de pessoas vulneráveis como ela, não está autorizada a sair de casa por mais de três meses. Sua maneira de revidar é colocar pequenos avisos escritos à mão em sua janela da frente para os transeuntes lerem; “Socorro, eles estão me mantendo como prisioneira aqui”, e “Deixe-me sair.” Às vezes falamos junto à cerca do jardim que separa nossas duas propriedades. A fantasia dela é a de que irei ajudá-la em uma fuga ousada.

É correto privar os idosos de sua liberdade para mantê-los a salvo da Covid? No entanto, deixá-los livres para enfrentar uma doença que eles não entendem, também impõe fardos intoleráveis de responsabilidade moral aos membros da família.

Tenho uma amiga brasileira muito querida cuja mãe de 86 anos mora no Rio de Janeiro, no coração do Leblon, bairro que no mês de abril chegou a ter a maior concentração de casos de Covid-19 por habitante, no estado do Rio de Janeiro. No entanto, a idosa teimosamente se recusa a deixar seu aconchegante apartamento. “É aqui que eu escolho morrer”, diz ela, uma adorável senhora vivaz que ainda pode animar uma festa em qualquer lugar. Ela adora o burburinho e a agitação dos bares boêmios do Rio, da rua lotada com relances da praia. Ela jura que nunca vai deixar essa “Cidade Maravilhosa”.

Seus dois filhos têm locais tranquilos, confortáveis e saudáveis fora da cidade, onde ela poderia ficar em quarentena com eles em total segurança. Eles poderiam resgatá-la amanhã, mas respeitam seus desejos. Então, ela simplesmente não vai sair do Rio, alegremente preferindo se arriscar no lugar movimentado e perigoso que ama.

E quem pode dizer que essa “velhinha” digna não está absolutamente correta?  Se o importante é manter a qualidade de vida, em vez de apenas estender a quantidade de dias deixados para cada um de nós, então flertar com os perigos conhecidos da Covid-19 parece infinitamente preferível a uma meia-vida persistente de confinamento. Sim, toda a vida é sagrada; no entanto, a liberdade é certamente o melhor fruto de uma vida bem vivida.

O novo coronavírus pode provavelmente continuar sendo um risco mortal para os idosos por muitos anos. Talvez o dia finalmente chegue quando eu envelhecer e me encontrar forçado a fazer uma escolha entre “Castelos Coronavírus” muito diferentes para terminar os meus dias.

Eu poderia parar minha própria cadeira de rodas no tranquilo asilo inglês do meu tio incomodado apenas pelo som distante dos sinos da igreja da antiga catedral, trancado em segurança longe do vírus, em uma terra segura de grama verde e céus cinzentos que lembram “London, London“, de Caetano Veloso.Ou, em um futuro alternativo, eu poderia bater minhas rodas perigosamente pelas tomultuadas calçadas de Ipanema entupidas com camelôs, trilha sonora caótica do funk-e-samba de rua distorcendo meu aparelho auditivo, sol escaldando meus ombros artríticos. O ar úmido e poluído do Rio ainda pode estar cheio de esporos mortais do coronavírus, um perigo em cada cruzamento.  No entanto, esse mesmo ar também conterá a memória rejuvenescedora de que “o Rio de Janeiro continua lindo”, um pôr do sol esplêndido, uma praia perfeita repleta de figuras “mais lindas mais cheias de graça” da imortal canção de Vinícius de Moraes. Um final perfeito.

* Cidades regionais com basílicas/catedrais da época da Idade Média. São grandes cidades europeias mas que não são as capitais do seus países, a exemplo Milão, Aachen, Colônia e Chartres

Richard House  foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde. 

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