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‘Rebeldes da Covid Sem Causa’: a Natureza Humana e os festeiros pandêmicos

O que é preciso para transformar cidadãos normalmente cumpridores da lei em rebeldes da covid, dispostos a colocar a si mesmos, familiares e estranhos em risco de uma doença potencialmente fatal, a fim de “proteger suas amadas liberdades” independentemente dos riscos epidemiológicos comprovados?Durante os primeiros meses da pandemia global, parecia que tais comportamentos potencialmente autodestrutivos estavam confinados a uma margem libertária de direita ou defendidos apenas pelos Trumpistas e Bolsonaristas mais apaixonados e aguerridos. Não mais. Uma nova vontade entre os cidadãos comuns de questionar e, até mesmo, quebrar a rede das regras da saúde pública em constante mudança pelos governos para restringir a disseminação da covid-19, tornou-se difundida nas democracias ocidentais.

Isso não está acontecendo apenas no Brasil e nos Estados Unidos, onde as administrações públicas federais rejeitam quaisquer medidas para proteger a saúde pública que possam prejudicar a economia ou os empregos. Festas em massa e marchas de protesto em Berlim e Londres; eventos ilegais de ‘rave covid’ em boates de Lisboa, Zurique e Paris; grupos de bebedores noturnos desafiando as regras locais de toque de recolher nas cidades regionais da Europa.

Isso é mais do que simples “fadiga de confinamento estendido”.  O consenso social e a coesão – o princípio “estamos todos juntos nisso” que nos ajuda a aceitar regras que não gostamos – está agora sob séria ameaça.

Em parte, porque não há como esconder o fato de que não estamos todos juntos nisso. Por múltiplas razões, a Covid afeta o idoso mais do que o jovem; aqueles sem instrução mais do que os bem instruídos; os pobres mais do que os ricos; a cidade mais do que o campo; os de ascendência africana mais do que os europeus brancos; alguns grupos religiosos, como os praticantes muçulmanos e judeus ortodoxos, parecem mais vulneráveis; aqueles com trabalhos não qualificados mais do que os gestores trabalhando de casa com seus laptops.

Então, apesar do ressurgimento de uma segunda onda potencialmente mortal à medida que o inverno do hemisfério norte se instala, rebeldes da covid cansados da quarentena parecem estar ganhando o argumento que é: “Se as pessoas pararem de obedecer às regras, estaremos todos mortos. Mas se todos seguirmos as regras, também eventualmente estaremos mortos. Então por que não festejar até que isso aconteça?”

Para os criadores de políticas e especialistas em saúde pública, a tarefa de criar “imunidade de rebanho” é muito mais difícil quando os governos não podem confiar no “comportamento de rebanho” – a menos que usem multas, a polícia e talvez até mesmo as forças armadas, para impor as regras de quarentena, isolamento local ou distanciamento social. Mas, mais regras simplesmente significam mais rebelião em sociedades onde o individualismo está profundamente enraizado.

Eu costumava guardar minhas palavras mais ásperas para esses rebeldes da covid – até semana passada quando eu descobri um pouco de como é se sentir um. E eu adorei. Fui a um show em um teatro local perto de Londres para ver uma autoproclamada “diva do soul” cantando números de Diana Ross, Whitney Houston e Amy Winehouse. Cantamos junto, batemos palmas, dançamos, bebemos, estalamos os dedos – e nos sentimos entusiasmados por estar em uma apresentação artística ao vivo pela primeira vez em mais de seis meses. Sem Zoom, sem YouTube, sem Instagram, sem Spotify. Nada de Netflix. Isso foi real.

Obedecemos a lei , mas no limite. Tomamos alguns drinks antes do teatro na casa de um amigo. Depois, no teatro, éramos oito para um grupo legalmente permitido de seis. Então entramos como dois grupos socialmente distantes de quatro pessoas. E apesar das regras de toque de recolher das 22h do governo britânico, depois do show, todos nós permanecíamos nos bastidores junto à cantora, apenas para estar perto de uma artista real, ainda radiante pela alegria de ter cantado diante de um público real. Depois, em uma ceia na casa de outro amigo, compartilhamos nossa própria emoção quase infantil e o prazer de estarmos juntos para um show após a longa, longa fome cultural. Mesmo fazendo parte de um pequeno público de apenas 30 pessoas em mesas socialmente distantes. Foi uma alegria.

A experiência me ajudou a entender e a pensar com um pouco mais de bondade sobre os profundos impulsos humanos que devem comandar o comportamento dos rebeldes da covid e fazê-los voar em face do senso comum médico.

Em vez de punir isso como uma falta imatura de autodisciplina, egoísmo ou baixa tolerância ao tédio, precisamos procurar mais profundamente por respostas. Um profundo desejo gregário de estarmos juntos. A fome por prazeres simples, como arte, música e dança. Uma determinação para afirmar a vida – mesmo que a ameaça de morte se torne mais onipresente.

Em artigos anteriores mencionei sobre representações artísticas deste impulso de vida imprudente que eclodiu durante as maiores pragas da humanidade: A Dança Macabra de Holbein; Decameron de Boccaccio; Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch. Essa é a natureza humana.

Não estou desculpando ou perdoando o comportamento de rebeldes da covid que participam de eventos “super difundidos” como casamentos da alta sociedade na Bahia, comícios de motos em massa nos EUA, ou raves de praia durante toda a noite em Ibiza. Mas, o trabalho de especialistas em saúde pública e epidemiologistas não é apenas entender o vírus para que eles possam derrotá-lo com uma vacina – mas para que governos e criadores de políticas públicas entendam como comportamentos sociais tão profundamente enraizados na psique humana podem ser influenciados, cutucados ou domados.

Agora sabemos que não se pode colocar o mundo em prisão domiciliar e esperar que todos se comportem, mesmo que você controle o exército. Pol Pot, Mao Tse Tung, Stalin e Kim Il Jong tentaram e falharam. Qualquer plano global racional para derrotar o Novo Coronavírus precisa levar em conta as fraquezas e vulnerabilidades do comportamento humano, bem como a vulnerabilidade do vírus a uma vacina.

O mundo está reclamando e está ficando progressivamente mais desordenado e o Coronavírus adora isso.

*Richard House  foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde. 

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