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SAÚDE PELO MUNDO: Libertação do FOMO

Um clube em que no dia 10 de fevereiro contava com mais de 152 milhões de pessoas pode não parecer muito exclusivo – especialmente quando a adesão global está crescendo em mais de 5,6 milhões de pessoas por dia. Ainda assim, a lista de espera tem quase sete anos de duração, e inclui oito bilhões de pessoas cada vez mais ansiosas.

Como você já deve ter adivinhado, estes são os números aproximados para o que podemos chamar de “Clube da Vacina”. É um clube que deveria incluir todo mundo, mas não inclui. Para se qualificar, você precisará tomar sua dose da vacina contra a Covid-19.

O Brasil, por exemplo, administrou 4,27 milhões de doses de vacina contra o novo coronavírus na mesma semana de fevereiro que a China já havia dado aos seus cidadãos 40 milhões de doses, o Reino Unido 13,5 e os Estados Unidos 46 milhões. Ainda assim, o total do Brasil foi maior que Alemanha, França e Espanha, segundo a Bloomberg *.

 Os benefícios para a saúde dos membros desse clube agora estão sendo discutidos intensamente pelos cientistas. Mas como membro recém-admitido do clube, posso dizer uma coisa: A maior vantagem é a paz de espírito, ou o fim do FOMO (Fear of Missing Out / Medo De Ficar De Fora).

FOMO, como você deve saber bem se conviver com um adolescente, é um estado de espírito que molda grande parte da atividade da mídia social do mundo e, portanto, estrutura as vidas digitais modernas. Ao obter curtidas digitais, corações, emojis suficientes ou seguidores para as suas postagens, você sobreviverá e talvez progredirá. Falhe em ser notado e você pode ser vítima de depressão, inveja ou esquecimento digital. 

FOMO pode ser só um desconforto trivial da nossa era digital mimada. E ainda assim é incrivelmente semelhante a algo muito real, e muito sério. Essa é a ansiedade generalizada que hoje assola centenas de milhões de pessoas no mundo real, impulsionada pelo clamor universal por vacinas insuficientes. 

Já se fala muito sobre “nacionalismo de vacinas” sobre a justiça de dividir o mundo entre os “que tomaram vacina” e os “que não tomaram vacina”; sobre aquelas forças econômicas e políticas criando rivalidade na batalha prioritária entre faixas etárias ou gerações, entre profissões, entre regiões, nações, continentes, blocos econômicos, raças, dividindo a própria humanidade.

A sensação de ser deixado de fora é muito real. Quem merece ir primeiro?

Como um cidadão britânico de 66 anos que vive em Londres, tomei minha primeira dose de vacina Pfizer no início de fevereiro, juntando-me a outros mais de 13 milhões de britânicos já no “Clube da Vacina”.

Construir minha imunidade clínica contra o Covid ainda requer uma segunda dose e vai levar muitas semanas, mas senti alguns efeitos colaterais importantes imediatamente. Redução da frequência cardíaca, sensação de maior tranquilidade, alívio calmo, e um desejo benigno e sincero para que cada humano no planeta receba sua própria dose de vacina o mais rápido possível. Eu me senti relaxado, generoso e, acima de tudo, totalmente livre do FOMO.

Apenas uma semana antes, eu estava tenso, irritado e atormentado com a crescente ansiedade de que as regras prioritárias para os cidadãos britânicos que recebem a vacina mudariam de repente pouco antes da minha vez de receber a vacina, e eu seria enviado para o fim da fila.

Durante o mês de janeiro, a campanha britânica de vacinação vinha avançando com uma velocidade incrível, chegando até os residentes de asilos, as pessoas com 80, 70 anos de idade, médicos e profissionais de saúde da linha de frente. Sim, fiquei irritado ao saber de muitas pessoas mais jovens que receberam a vacina antes de mim, algumas com pretextos duvidosos. Mas, como sênior, minha vez certamente chegaria. Eu tinha condicionado a mim mesmo para esperar uma data de vacinação para meados de março.

Então começaram as calorosas discussões políticas: em vez de primeiro vacinar recém-aposentados de 60 anos de idade, mas saudáveis, por que não dar prioridade a professores mais jovens, assistentes de berçários, policiais e trabalhadores do serviço de emergência, soldados, trabalhadores de supermercado? Meus níveis de FOMO começaram a subir perigosamente, embora ainda fosse apenas janeiro.

Por trás de toda a conversa estava a batida audível de alarme: “não há vacina suficiente para distribuição, não o suficiente para todos”. Os fabricantes alertaram para problemas de produção. Os países lutavam para garantir o fornecimento. Eu nunca vou entrar no Clube da Vacina?

Então veio a ligação abençoada. A experiência da vacinação em si foi rotineira, até mesmo mundana. Do lado de fora do meu posto de saúde primário onde a injeção foi administrada, o clima na fila era desanimador, comparável à de uma eleição municipal. Parecia mais um dever cívico do que um ingresso para a liberdade e segurança pessoal. Mas sim, a vacina me fez sentir feliz e seguro.

Agora, é claro, sabemos que as variantes virais emergentes da Covid-19 tornaram a imagem menos clara. Aqueles de nós que foram vacinados primeiro não estão seguros: muito pelo contrário, na verdade. Aqueles que receberão a vacina mais adiante em 2021 podem achar que vão receber uma vacina mais eficaz e atualizada, que é mais capaz de resistir à infecção por novas variantes vindas da África do Sul ou do Brasil.  

Em contrapartida, os vacinados primeiro podem precisar de injeções adicionais de reforço se não tiverem adquirido imunidade adequada às novas variantes da Covid-19. E as primeiras vacinas que chegaram ao mercado podem ser menos eficazes do que aquelas que só agora buscam aprovação regulatória.  Assim como na história da tartaruga e da lebre, a corrida contra a doença raramente é vencida pelos primeiros líderes.

Contudo, ainda há muito com o que se preocupar. Na verdade, meus níveis de FOMO já estão subindo.

* Dados divulgados em 10 de fevereiro de 2021

Richard House     foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde. 

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