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Vivendo o Confinamento Perfeito

Os governos estão lutando contra o problema de como e quando acabar com os regimes de confinamento para proteger as populações da infecção covid-19 que já causou mais de 489.000* mortes e infectou mais de nove milhões de pessoas em todo o mundo*.

Quebrar o isolamento social muito cedo pode fazer o número de reprodução do vírus disparar, provocando uma segunda onda da doença. Quebrar tarde demais pode resultar em um custo econômico e social incalculável. Então como decidir?  A ciência médica pode nos mostrar o panorama geral. Mas a natureza humana e a sociologia do comportamento humano são o que realmente guiam os parlamentares em decisões que afetam nossas vidas.

Essa é uma doença para a qual não há prevenção correta, nenhuma cura conhecida e nenhuma vacina (ainda). Os cientistas podem aconselhar, mas as emoções bem humanas de impaciência, frustração, medo, ganância, desconfiança e até mesmo tédio são as que fazem os políticos (de olho em sua próxima eleição) realmente decidirem por nós.

A natureza humana revela-se de forma diferente em todo o mundo, ditando padrões variados de doenças. A Nova Zelândia (1.516 casos, 22 mortes) já está livre do vírus.  Assim como Taiwan (446 casos, 7 mortes). A Etiópia (4.848 casos, 75 mortes) já fez a triagem em 40 milhões de pessoas. 

Em contrapartida, os confinamentos nos EUA (124.415 mortes, 2.422.555 casos*) e no Brasil (54.971 mortes, 1.228.114 casos**) são, sem dúvida, os mais disfuncionais do planeta. Estes dois recordistas de infecção Covid-19 não experimentaram isolamento social harmonioso ou disciplinado e os dois presidentes são rebeldes incoercíveis contra as regras de confinamento. Recentemente, os EUA formam o epicentro de protestos violentos e furiosos contra os maus tratos dos afro-americanos que encorajaram um perigoso desrespeito às regras de isolamento social para provavelmente desencadear um novo pico.

Então, como seria um “Confinamento Perfeito”?  

Na realidade eu já vivi um. Em 1988 tive a sorte de passar sete semanas viajando ao longo da costa da Antártida a bordo de um navio, visitando mais de uma dúzia de bases de pesquisa científica pertencentes a dez países diferentes. Em um vasto continente gelado onde a natureza hostil torna impossível “quebrar o confinamento” e onde os moradores dessas bases dispersas só podiam se comunicar por rádio através de longos meses de escuridão de inverno, eu testemunhei em primeira mão como o verdadeiro isolamento afeta diferentes culturas e nações.

Eu era um repórter convidado a bordo do pequeno e desconfortável navio, o MV Greenpeace, em uma campanha para protestar contra a poluição induzida pelo homem na última região selvagem intocável. Há 30 anos, apenas cientistas ou exploradores iam à Antártida. 

As bases chilena e argentina eram administradas por militares interessados em expandir os direitos legais e territoriais no continente; as bases da Polônia e da Alemanha Oriental (isto foi antes do Muro de Berlim cair) ainda alinhavam à sua ciência com a então União Soviética. Os coreanos eram disciplinados, porém inescrutáveis. Os americanos eram mestres do rigor científico, excelência técnica e grandes orçamentos. Os britânicos ainda vangloriavam sua história heroica da descoberta da Antártica. 

Mas foi nossa visita à base antártica Comandante Ferraz na ilha Rei Jorge V que me deu percepções sobre a natureza humana brasileira que ainda soam verdadeiras 32 anos depois – me ajudando a entender por que hoje o Brasil está sofrendo tanto com a Covid-19. 

Quando o MV Greenpeace atracou e nossa tripulação – incluindo várias mulheres – desembarcou, as boas-vindas do comandante da base da Marinha do Brasil e sua equipe contrastavam calorosamente com a recepção fria ou hostil que tivemos de outras bases. 

A base espontaneamente deu uma festa agitada que durou uma noite em que várias tripulantes não voltaram para nossa embarcação. Quando entrevistei o comandante da base no dia seguinte, descobri que ele era um psicólogo investigando os efeitos da privação social e sexual a longo prazo em sua equipe de base totalmente masculina. Sua pesquisa cuidadosamente planejada tinha sido arruinada por nossa chegada não planejada. No entanto, ele não estava aborrecido que sua experiência tinha sido derrubada por uma única noite de diversão. 

Naquela época, os brasileiros mostravam que podiam quebrar até mesmo um confinamento polar perfeito. Então, que esperança há hoje de aplicá-la em uma nação gregária e sociável assolada por políticas governamentais caóticas e contraditórias? Após a onda Covid-19 passar, um tipo de inquérito público pós-morte revelará se as características nacionais brasileiras realmente ajudaram ou dificultaram a propagação da doença.  

Respeitar – ou melhor, desrespeitar – o confinamento é um fenômeno cultural e comportamental que traz consequências epidemiológicas. E tem uma longa história. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio, descreve um concurso de narrativas durante um confinamento para escapar da Grande Praga. Em 1947, o autor francês Albert Camus publicou A Peste, uma descrição fictícia de como personagens na cidade argelina de Oran se comportam em confinamento após ratos trazerem a peste bubônica. 

A própria conclusão existencialista de Camus é uma que certamente sentimos durante nossas experiências diferentes da Covid-19 – onde os indivíduos são impotentes para afetar seus próprios destinos, que são definidos por “pequenos atos de heroísmo particular e atos maiores de covardia pública”. Em vez de ciência racional, emoções bem humanas estão impulsionando tanto nossa resposta coletiva à Covid-19 quanto a dos tomadores de decisão. 

Sabemos muito bem o que é bom para nós, mas nem sempre faremos isso. E é por isso que, salvo aqueles poucos que enfrentam uma longa noite polar na Antártica, não existe tal coisa como um “Confinamento Perfeito”.

* Johns Hopkins University Coronavirus Resource Center (26/6/2020) https://coronavirus.jhu.edu/map.html

** Secretarias Estaduais de Saúde (25/6/2020 – 19h) https://covid.saude.gov.br

Richard House  foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde. 

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